Todas as cores

Marcos era um sujeito simples, trabalhava como funcionário público, namorava, saía nas sextas, sonhava com uma casa própria, muito honesto, enfim, um cara como qualquer outro. Nasceu na periferia de uma grande cidade, em um quarto todo azul. Seu pai adorava a cor azul, comprou um enxoval todo azul, a casa era toda azul, e afirmava: “Esse aí vai ser um fanático por azul!”. Mas Marcos sempre preferiu a cor branca, o que levava a seu pai especular a razão – foi a má influência dos amigos! – a culpa é de seu tio branquelo! – genética é que não é! – o que fiz de errado? Na realidade nem mesmo Marcos sabia a razão. Era irracional, apenas gostava de branco, oras! Achava a melhor cor, mesmo quando era um branco meio bege, ou quando o branco estava meio sujo.

Apesar dessas diferenças, os dois sempre se deram bem. As discussões sobre cores eram sempre divertidas. Nunca chegavam à lugar nenhum, mas continuavam discutindo. Nas sextas ainda se reunia com os amigos no bar do Zecão. Carlos, que gostava de amarelo, Aurélio, vermelho de coração e o Roberto, preto até o último fio de cabelo! O branco é muito melhor, pois é a união de todas as cores! O preto que é muito mais chique! O vermelho é a cor da paixão, da emoção! O amarelo é a cor que significa riqueza! Seu amarelão de merda! Vermelho é cor de boiola! Preto é coisa de marginal! Branco é cor de almofadinha! Riam muito, bebiam mais e voltavam para casa com as almas lavadas.

Um dia, voltando para casa depois de encontrar os amigos, Marcos é parado por um grupo de pessoas vestidas de preto. Leva 15 pontos na cabeça apenas por estar vestido com uma camiseta branca. Segunda vez no mesmo ano que isso acontece. Essas brigas sempre pioram nos dias em que decidem de que cor pintar a estátua da cidade.

A pintura da estátua é um ritual que se repete todos os anos. Um juiz é chamado junto a um grupo de consultores estéticos e de decoração, onde decidem a cor da estátua de acordo com a tendência da moda na estação. É sempre a mesma coisa, milhares de torcedores cromáticos gritando: Braaaaancooooo!!!! Preeeeetoooo!!!! Amareeeeeeelooooo!!!! Juiz ladrão!!!!! Filha da P…..!!!!!!!! Esse ano o preto ganhou por pouco, o que causou uma confusão entre os torcedores. Paus, pedras e rojões voando. Alguns mortos, centenas de feridos, poucos presos e menos ainda punidos.

Marcos pego ainda com um pedaço de cano na mão, é condenado a 2 anos de prisão, dividindo a cela com Pedrão, Dedé e o Zé Rato. Pedrão preso em briga entre fãs de música baiana contra fãs de música americana, Dedé preso por assassinar uma pessoa que colocava mostarda na pizza e Zé Rato preso por atirar uma bomba nos usuários de Windows em vez de Linux.

Lá os fãs de branco ou de preto não tem escolha, sempre usam uniformes listrados.

P.S. Logo após a publicação dessa crônica, Marcos foi encontrado morto no presídio por trajar um uniforme branco com listras pretas ao invés de preto com listras brancas.

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1 Comentário on "Todas as cores"

  • paulo diz

    Realmente muito boa a analogia. Assim fica muito mais fácil entender como certos fanatismos são irracionais e imbecis. Mas, sem dúvida, o cara que colocava mostarda na pizza merecia a morte. Na verdade, ele deveria ter sido torturado antes. Quem sabe ele não contava tudo…”Quais são suas conexões?” Quem está distribuindo essas drogas nas pizzarias?” “O motoboy está envolvido?”

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