Domingão Culturete

Domingão. Aquela velha rotina ociosa. Acordar preguiçosamente às 11 horas e ir para o sofá da sala. Ler o jornal e assistir televisão até a hora do almoço, sempre na horizontal, afinal é domingo. Após o almoço uma espreguiçada e mais lesera no sofá. Um domingão típico. Sinto-me até envergonhado de desperdiçar tanto tempo assim. Estamos em São Paulo, a terceira maior cidade do mundo. O maior pólo cultural da América Latina. Centenas de opções de lazer. Não há desculpas. Falta de dinheiro? 31 shows musicais, 5 espetáculos de dança, 13 mostras de cinema/vídeo, 28 exposições e 26 peças de teatro; todos gratuitos. Moro longe? Atualidades e RAP em São Miguel Paulista, Teatro de Antônio Abujamra no Butantã, show do Quarteto Grave em Santana, Tarde Literária em Santo Amaro ou Ópera no Centro; extremos Leste, Oeste, Norte, Sul e o Centro, todos cheios de atividades. E o que eu estou fazendo em casa? Eu tenho que aproveitar o domingão e fingir que tenho cultura. Tirei meu pijama e fui à luta. Mostra de Curtas-Metragens Paulistas no Centro Cultura São Paulo. Gratuito e do lado de casa.

Toda essa introdução para esse pequeno comentário: vocês não odeiam quando encontram aquela pessoa que você conhece, mas não é assim seu amigo, daquele tipo que até é gente boa, mas não rola muito papo, sabe Deus o por quê. Aquela situação onde estão os dois sozinhos e você tentando achar algo para dizer só para quebrar aquele silêncio constrangedor. Pois bem, cheguei ao Centro Cultural numa boa, peguei o ingresso sem problemas e esperei abrir a sala. Enquanto não abria passeava pela exposição de fotos montadas lá. Sentada no canto vejo uma conhecida minha. Aliás, uma daquelas pessoas que você conhece, mas não é assim seu amigo… etc, como expliquei no início do parágrafo. Não, acho que não é ela, está diferente… sei lá. É melhor fingir que não viu que pagar mico e cumprimentar a pessoa errada. E depois sempre tive a impressão que ela não gostava de mim. Abriu-se a sala e entrei, logo atrás veio a suposta conhecida que não é exatamente amiga e etc. Tento olhar melhor para ver se é ela mesma, mas não chego à certeza nenhuma. Ignorar… É… Ignorar é bom…

Saindo da sessão a procuro com o olhar mais uma vez, mas não a encontro. Ficarei com minha dúvida. O que não considero nenhum grande fardo. Sentimento de dever cumprido por aproveitar toda essa cultura da cidade e agora posso voltar para a minha…

– Leopoldo! É você?
– Ah.. (como é o nome dela mesmo? Ai cacete! …Fernanda! Isso! Fernanda!) Oi Fernanda! Tudo bem?
– Tudo bem! E aí? Assistindo a sessão também? Só o último curta que é muito chato! Se tivesse uns 15 minutos a menos seria bem melhor. É longo demais! Nem deviam chamar aquilo de curta!
– (Boa piada. Faça um comentário agora para parecer culto e inteligente) Verdade. É bem chato mesmo. Mas também é uma peça documental. Tem todo o trabalho de restauração dos filmes da Glauce Rocha. (Ainda bem que por sorte assisti o programa Zoom que passou uma reportagem sobre esse curta)
– Essa sessão não foi muito boa mesmo.
– Pois é. A de ontem estava bem melhor. (sim, eu também assisti a sessão no sábado).
– É, claro, tinha o “Palíndromo”. Curta premiadíssimo.
– Mas a que gostei mais foi o “Palace II”. Assistiu?
– Não, não consegui, mas ouvir dizer que é bem legal.
– … (silêncio constrangedor… Odeio isso.)
– …
– Pois é, tenho que ir. Tchau!
– Legal te encontrar. Tchau!

Agora sim, voltei para casa com o sentimento de dever cumprido e, ainda não sei por que, com a mesma sensação de que ela me odeia.

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3 Comentários on "Domingão Culturete"

  • paulo diz

    Fiquei curioso. Esse curta “Palíndromo” existe mesmo. Como será que é o enredo, um cara pedindo socorro em um ônibus no Marrocos?

  • Deja vu.

    Gostei do final. Rs.

    Li sua matéria no mundo perfeito. Show.

  • Fabio! diz

    Tipo, eu tava atraz de um site sobre leopardos e entrei aki por curiosidade!!

    Bom , eu gostaria de saber se o texto todas as cores, clara critica sobre o futebol e seus fanaticos torcedores , é de sua autoria ou de outra pessoa!!!!Fui

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