Porque eu não gostei de Matrix

Mas por que você não gostou de Matrix? Essa é a pergunta que mais escuto quando discuto sobre cinema. Aliás, como todo chato, eu provoco tal pergunta. É que parece um dogma supremo gostar de Matrix. Pois bem, eu não achei o filme essa maravilha toda. A razão desse texto é na verdade um forma de poupar tempo argumentando sobre o assunto. Situação semelhante ocorre quando alguém aparece com o pé, ou o braço (ou qualquer parte do corpo possível) engessado – “Mas o que houve?”; “Como você se machucou?” – E dá-lhe explicações. Quem nunca sentiu vontade nessas situações andar com uma plaquinha dizendo “Quebrei a perna caindo da escada” para evitar ter que repetir a mesma história 6854 vezes seguidas? Pois bem, essa é minha plaquinha. Da próxima vez que alguém me porguntar por que eu não gostei de Matrix, é só responder: entre no site www.cronistasreunidos.com.br que além de poupar meu tempo, ainda gera acessos no site.

Antes de qualquer coisa, acredito que nós somos intensamente influenciados pela expectativa. Se nossa expectativa é baixa, você não cobra tanto do filme. Para terem uma idéia, até me diverti assistindo Tomb Raider. Pela lógica se você espera um filme -10, e assiste um fime -8, acaba saindo com um lucro de 2, certo? Pois bem, a minha grande besteira foi esperar demais do Matrix. Um filme surpreendente, idéias revolucionárias, o novo Blade Runner!

Surpreendente? Um filme que você sabe o final no começo do filme para mim está longe de ser surpreendente. Logo no início já sabemos que ele é o “The One” e vai detonar todo mundo que aparecer pela frente. Está mais que claro a Trinity irá ficar com ele no final. Logo que “o cara que trai o grupo” aparece, dá para ter certeza que ele vai ser “o cara que trai o grupo”. Nem vale a pena tecer maiores comentários na cena “não morra porque eu te amo”. É, estraguei a surpresa caso não tenham assistido ao filme, mas aliás, que surpresa? São apenas clichês em cima de clichês. roteirinho básico seguindo todas as regrinhas de Hollywood.

Idéias revolucionárias? Talvez. A premissa é interessante. Embora seja uma colagem de todas as ficções científicas existentes. Futuro apocalíptico, guerra entre robôs e homens, cyberpunk, realidades virtuais, enfim, nenhuma grande originalidade. A Matrix é como um Grande Irmão do 1984, a batalha contra robôs inteligentes já foi filmada pelo James Cameron, sobre o espaço virtual temos discussões interessantes em “Ghost in the Shell” e até a idéia sobre a humanidade ser um vírus é (provavelmente) chupada dos “Invisíveis” de Grant Morrison. A grande sacada dos irmão Wachowski foi juntar todos esses elementos ao mesmo tempo agora sob um visual da Gucci e som techno. Ponto para eles. Pena que escorreguem na história.

Novo Blade Runner? Os Wachowski ainda precisam comer muito arroz com feijão para chegarem no nível do Ridley Scott. Duvido que sejam tudo aquilo que falam deles. Eles fizeram o roteiro do “Assassinos” dirigido pelo Richard Donner, com o Stallone e o Antônio Bandeiras. Nenhuma maravilha da natureza. Escreveram e dirigiram “Ligadas pelo desejo”. Hã? Alguém já ouviu falar? Li alguma coisa a respeito. Sem grandes elogios. E produziram o péssimo “Romeu tem que morrer”. Convenhamos, uma filmografia dessas não é das mais conceituadas. Ainda são péssimos diretores de atores (se bem que o Keanu Reaves também não ajuda) e faltou clima ao filme. Se eles estão em um mundo onde tudo é controlado pela Matrix, onde qualquer um pode ser um inimigo, nada mais lógico que colocar um clima mais tenso, mais paranóico, gerar mesmo um clima de dúvida “o que será essa Matrix?”. Um filme que se propõe em descobrir os mistérios da Matrix (incusive o site é www.whatisthematrix.com) e logo no começo do filme já são revelados todos os segredos, é, ao meu ver, um erro grotesco. O grande “escorregão” que vi nesse filme foi justamente esse: clima! A falta de clima acabou por limar a história, deixá-la em segundo plano, dando preferência à um roteiro fraco que encaixasse mais tiros e lutas de kung-fu. Imagine que maravilhoso seria esse filme se fosse dirigido pelo David Fincher.

Sim, o filme tem seus méritos, e não são poucos. A direção de arte é linda, os efeitos são muito bons, edição de qualidade, há boas cenas de ação, mas nada que alguns muitos milhões de dólares não fariam.

Sem sombra de dúvida revolucionou os filmes de ação em Hollywood. Mas nada que os filmes de ação chineses não faziam há anos. Assistam “Golpe Fulminante” do Tsui Hark, com o Van Damme. O filme é ruim, mas toda a linguagem “revolucionária” de câmera, edição, movimentação e coreografias que Matrix usou estão lá anos antes. O efeito de “paralisar no ar” (que esqueci o nome do efeito) já era usado em clipes e propagandas. Novamente o mérito do filme é juntar todas esses recursos.

É um ótimo filme de ação, mas longe de ser o ”Primeiro filme do novo milênio”, como os próprios realizadores do filme definiram. Esperei 10, vi 8 e acabei no prejuízo de –2. Claro que poucos concordam com a minha opinião, inclusive os meus companheiros cronistas, mas acho que expus meu ponto. E afinal, um pouco de polêmica não faz mal algum. O espaço de comentários está aí para isso. Só não vale xingar a mãe.

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19 Comentários on "Porque eu não gostei de Matrix"

  • meu comentário: você é chato, Matrix é legal.

  • Rafael diz

    Não conheço a sua mãe, por isso só posso dizer: Você é um bobão cabeça de minhoca.

  • Paulo diz

    Olha, me diverti com Matrix e até concordo com as referências que vc citou como fontes dos cidadãos. Mas vc me quebrou as pernas quando me fez pensar o que o Fincher faria com essa premissa. Dead on!

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Leopoldo. Pelo amor de Deus não se torne um crítico de cinema! Pelo bem da humanidade. Bons comentários, porém o filme é tchans!

  • Ricardo diz

    Seu feio ! Bobo !! Nariz!!!!

    O dia que você perceber que tem um plug na sua própria nuca, talvez você mude de opinião!

    Enquanto isso, continue com essa polêmica, pq discussão com gente com bons argumentos sempre é bom!

    Cabeça de melão! Humpf!

  • Kris diz

    Querido Leopoldo, creio que vc não imaginava as proporções das reações a esta sua heresia, digo crônica, qdo a escreveu.

    Para mim é o primeiro filme do novo milênio sim, se o clima não funcionou pra vc pra mim funcionou, sobre o David Fincher, bem tudo bem que eu tenha amado o “Clube da luta” porém assisti “O quarto do pânico” e achei um desperdício de dinheiro e trabalho descomunal, ali sim não foi criado clima nenhum. Logicamente nem tudo foi inovador no “Matrix”, isso foi admitido pelos próprios Wachowski em entrevista, influências de todos os lados, sobre os clichês, bem segundo o ditado “Se é clichê é por que é bom” ou ao menos funciona, vc falou tanto de “Blade Runner”, bem acho o filme fantástico mas um saco de assistir…

    E por ultimo mas não menos importante, “Ligadas pelo desjo” é um filme fantástico cenas de Gina Gershon e Jennifer Tilly que valem o filme inteiro…

    Vou parar de escrever senão isso vira uma crônica resposta então fui…

  • Fabiane Secches diz

    E se você tentar ver o filme como uma grande metáfora? Sei que a analogia vai parecer exdúxula, mas enxergando “Matrix” como uma parábola, há um ponto em comum com a parábola que também está por trás de “Abril Despedaçado”. Se você já assistiu, lembra a cena em que os bois andam sozinhos? A partir daí, Tonho (Rodrigo Santoro) começa a questionar as atitudes automáticas que vinha tomando, e pensar que a vida poderia ser mais do que o óbvio. “Matrix”, como metáfora, dia para mim o seguinte: não seja autômato, questione mais. Questione sempre. Afinal, como já disse o grande Shakespeare, há muito mais entre o céu e a terra do que suspeita a nossa vã filosofia!

    De todo modo, tenho que admitir que a crônica está muito bem escrita e bem fundamentada, mesmo que eu pense diferente de vc.

    Pelo texto, parabéns!

  • Fabiane Secches diz

    Desculpem, meninos, na empolgação acabei cometendo um erro esdrúxulo: escrevi esdrúxula com dois x, e ainda subtrai um r!

  • Sérgio diz

    É Prada,não Gucci. Prada tá, Prada…

  • Ricardo Alter diz

    Ahhh!!! mas “Por que vc não gostou de MAtrix!!!….”

  • Dani diz

    Eu te entendo, Leo. Eu não gostei de Cidade dos Sonhos.

  • Anninha diz

    Depois de ler o texto e todos os comentários não sei nem o que pensar. Pode me chamar de influenciável! Primeiro: adorei Matrix, mas não poderia dizer que é meu filme preferido. Depois de tantos pontos colocados, acho que poderia discutir a respeto apenas depois de rever o filme (o que, aliás, já estou pra fazer há algum tempo, mesmo). Adoro cinema, mas estou longe de saber em profundidade sobre todas as referências dadas, então… Só me resta ver de novo e reanalisar o bendito. Até lá, adoro Matrix.

    Além disso, amei o texto. Não apenas por estar extremamente bem escrito e bem fundamentado (ao menos para a leiga aqui), mas pela coragem de se assumir publicamente contra uma opinião praticamente unânime. Como diria a Fabiane, corojoso. Belíssimo texto, Léo!

  • Leopoldo diz

    Ok, ok… Admito: Prada!!! Errei.

    Admito tb: bobo, cabeça de minhoca!!

    Mas nunca, NUNCA me chamem de Nariz!!!

    Kris, pra vc ver essa coisa de gostos, eu achei “O Quarto do Pânico” bem legal. Ok, historinha fraca e alguns excessos de acrobacias “camerísticas”. Mas achei um climinha bem “hitchcockianao”. Longe de ser um “Seven” ou um “Clube da Luta”. E acho q errei ao criticar o “Ligadas pelo Desejo” sendo que nem assisti. Agora nem tudo q é clichê é bom. A saída mais fácil nem sempre é a melhor.

    Fabiane, valeu os elogios. Si, o filme pode ser visto como uma metáfora. Mas o fato de ser uma metáfora não significa que seja bom.

    Concluindo: o filme é bom. Mas ficou um gostinho amargo q poderia ser ainda melhor.

    Conclusão 2: é, sou um cabeça de mamão mesmo.

    Conclusão 3: Ah, Cidade dos Sonhos é legal. (mas Twin Peaks ainda é melhor)

  • Anônimo diz

    Fiquei imaginando como seria o filme matrix feito pelo david linch. Não consegui imaginar nada. Aliás se vc entendeu essa porcaria por favor me liga e explica. Costumo desconfiar de filmes que vêm com dicas e explicações. Matrix é simples porque é feito para agradar as massas. Vc foi muito duro com os rapazes, o Ridley Scott cansou de fazer filmes populares. Que tal “o gladiador”? O famigerado Blade Runner foi um fracasso inicial de bilheteria, o filme não era um filme de apelo popular como o Matrix. É preciso não exigir tanto de um filme feito para a grande massa e evitar comparações desse tipo. Eu entendo a sua crítica e ela é honesta e justa. Mas ela beira a birra. Acho que o problema é que vc está ficando velho e anacrônico. Quando lançaram o Chico Science eu tinha a maior birra dele. Depois que ele saiu de pauta é que eu percebi o valor inovador da música dele. Resumindo: seu anacrônico birrento!

  • Renata (a da TV, tá?) diz

    Tá bom, vai. Deixo pra xingar a mãe no próximo.

    O que mais me interessa no filme, deixando de lado o papo cinematografês, é a metáfora. Já pensaste nisso? Como diz algum grande filósofo da Grécia Antiga: “O buraco pode ser mais embaixo. Cabe a nós encontrá-lo”.

    Beijocas

  • name diz

    Clube da luta é uma porcaria. Extremista “ao extremo”. Nada realista, nada questionador. Cheio de carnificina apelativa. Não vende uma idéia, nem a oposiçao a ela. Não passa de uma porra-louquice aplelativa.

  • name diz

    “apelativa”

  • malena diz

    como todos já disseram, texto muito bom. mas matrix é ótimo.

  • Marcus Fabrícius Maggioli diz

    Cara, entrei pensando em te críticar mas depois de ler os posts idiotas que deixaram pra vc concordo em parte com o que disse. Só queria deixar duas coisas: Primeiro: Assisti Matrix antes do boom, fui no primeiro dia e não curto assistir tv, por isso não sabia sobre o que era. Fui ao cinema pelos diretores. Já havia assistido Ligadas pelo Desejo e achei os caras muito bons. O filme é um dos melhores thrilers do cinema, sério. Muito clima, boas cameras e interpretações, uma boas história e bons diretores.O segundo é que até o filme pouca gente sabia o que era cyber espaço, realidade alternativa, futuro pos apocaliptico ou seque o grande irmão. O filme tornou acessivel um monte de contextos e até mesmo o modo “anime” de contar uma história de modo que gerasse um pouco mais que explosões. Ensinaram o público a questionar.Se ele aprendeu é outra história.

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