Verde / Amarelo

Certos acontecimentos não têm motivos, ou razões específicas para existir, eles apenas acontecem. Claro que nem sempre são creditados ou acreditados. Há relatos de homens lagartos na Indonésia, lobisomens no México ou monstros de neve no Canadá. A breve história que contarei aconteceu no Brasil. Fato este desconhecido por todos, simplesmente por não ser assustador, não ter o apelo de uma lenda ou uma moral definida. Seria uma história casual, como tantas outras que vivemos dia a dia, se não fosse por um pequeno detalhe do nosso protagonista: uma pele de cor verde-oliva e amarelo-ouro.

Seu nome era José. Fora abandonado quando bebê por sua mãe. Talvez por não ter dinheiro para sustentar um filho, talvez por algum acidente do destino ou o simples fato de ter rejeitado a aberração que pariu. Encontrado e adotado por um grupo mambembe em Andratinhoso, no interior do Piauí, Zé passou a infância viajando de cidade em cidade. Aprendeu muito sobre as pessoas, sobre a vida no interior do país, sobre a cultura em cada povoado.

Morria de vergonha de sua coloração estranha. Verde e amarelo? Isso é cor de gente? Queria ser uma pessoa normal como qualquer outra, mas sempre era marginalizado. Ninguém se importava com as inúmeras qualidades que Zé possuía. Inteligente, sem dúvida, mas nunca deram a oportunidade para provar. Caridoso, como nunca se viu antes, chegava a tirar a escassa comida de seu próprio prato para dar ao próximo. Simpático, é claro, sempre com sorriso no rosto. Bom de bola e de batuque. Mas alguém se importava com isso tudo? Claro que não! Franzino como ninguém, apanhava todos os dias por ser assim tão diferente.

Zé resolve que não quer passar o resto de sua vida apenas como uma aberração verde/amarela de um grupo mambembe. Abandona seus companheiros de infância e parte para a cidade grande com o objetivo de se tornar alguém na vida, de ser respeitado enfim. Ser um “doutor” é seu sonho. Na capital estuda, estuda e estuda até começar a desbotar sua cor natal. Zé se adapta muito bem à vida urbana e no fim se forma como primeiro da turma. Consegue um emprego em uma multinacional e faz MBA no exterior.

Volta ao Brasil com o cargo de world wide system network management. Ganha em dólar e em ações da Nasdaq. Muda para uma casa no Brooklin, almoça um hambúrguer com Coca-Cola no McDonald’s, faz compras na Gap e até trocou o futebol (aquele esporte de garotas) pelo basquete da NBA, assistindo os jogos pela Direct TV.

Atualmente José, também chamado de Joe, leva uma vida normal, como sempre sonhou. É igual a todos, inclusive no tom de pele: vermelho, azul e estrelinhas brancas.

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3 Comentários on "Verde / Amarelo"

  • Fabiane Secches diz

    Leopoldo, gostei muito do texto. Tem humor e seriedade na medida certa, uma mistura que funcionou bem. A crítica feita com bom humor e inteligência sempre nos toca mais! Parabéns! Um beijo, Fabi

  • anninha diz

    Leo, seu texto não está só bem escrito, mas extremamente bem sacado e pensado.

    Por um lado, parabéns pelo texto, por outro… que pena. :(

    Um abração verde, amarelo, azul e branco. *rs*

  • paulo roberto vasconcellos diz

    muito boa, “Joe”.

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