Escadarias

Não há no mundo melhor material para um cronista que um passeio pela Avenida Paulista. Sempre há tipos estranhos e coisas bizarras acontecendo por lá. E nem é São Francisco. Mas uma pequena cena banal me chamou a atenção. Saindo do metrô Consolação vejo uma mãe balzaquiana de mãos dadas com duas filhas loirinhas no auge de seus prováveis 6 e 8 anos. Elas agitadas, olhando para todos os cantos com a curiosidade e a empolgação típicas da idade. Mal se agüentavam em si, e ai de quem estiver no caminho! Embora não racionalizassem com essas palavras, internamente bradavam em alto e bom som: “O mundo é nosso!”.

Caminhavam impávidas aos olhos destraídos de sua mãe até encontrarem um desafio: a escada. Quem conhece a estão de metrô Consolação sabe o tamanho da escadaria. Não que seja algum desafio impossível para duas pequenas loirinhas sapecas, mas em comparação às outras estações, diria que é uma caminhada considerável. Minha escolha foi lógica, fui direto em direção à escada rolante, afinal todo cronista que se preze é um tremendo preguiçoso. Aliás, não preguiçoso, digamos que são pessoas que gozam dos pequenos prazeres da vida e sabem como aproveitar as maravilhas da modernidade, como a escada rolante, o controle remoto e sistema de delivery. Mas voltando à história, vejo a mãe encaminhando-se também para as escadas rolantes. Um ato automático, ninguém sem um bom motivo cogita ir pelas escadas. Alinhando-se à entrada das escadas rolantes ela sente uma resistência. São as pequenas filhas que desejam a todo custo ir pelas escadas (as não rolantes). É um desafio, um ato de rebeldia. É ir contra o sistema, infringir os costumes dos adultos. É a revolução em forma de pequenos anjinhos de cabelos loiros. A batalha começa!

Puxa daqui, puxa dali, manha de cá, manha de lá, “mas mamãe, eu quero ir pelas escadas”, “deixa, deixa, deixa, deixa…” para ouvir em seguida um ríspido “NÃO!”. Até que conseguem se desvencilhar do braço da mãe e saem correndo em direção à liberdade. Nesse momento estão todos os passantes olhando para a cena com aquele sorrisinho de canto de boca, satisfeitos com a vitória das crianças.

Nem a mãe, durona inicialmente, resistiu ao encanto da espontaneidade das filhas. Disfarçadamente abre também um sorrisinho orgulhoso vendo a alegria das duas. Um pequeno ato de subir as escadas se tornou a maior aventura para aquelas pequeninas. Uma delas se vira e grita chamando todos os olhares: “Olha mãe!”. A resposta veio em seguida: “Ana Maria! Se você se machucar eu não vou querer nem saber!”. Claro que era mentira. Afinal ela não podia dar na vista todo o orgulho que sentia ao ver as filhas independentes. Provavelmente ela pensou que uma mãe brava deve impor mais respeito que uma mãe com um sorriso bobo. Mas não resistiu por muito tempo, logo depois abriu novamente a cara e deu uma risadinha para si mesma. E subiram incansavelmente todos aqueles lances intermináveis de escada vigiadas pelos olhares de todos os passageiros. Impressionante a vitalidade de quando somos crianças. Criança não sente cansaço! Corre o dia inteiro, brinca o tempo todo. E quando acaba energia, elas dormem. Simples assim. Não há um estágio intermediário em que xingamos os nossos pulmões por não funcionarem como deveriam. E também não há um estágio posterior onde doem todas as partes do seu corpo, até onde você nem imaginava ter músculos.

Não satisfeitas com tal proeza ainda insistiram novamente para que pudessem subir pela escada da estação até a saída da rua. Estava no próprio comercial do Omo, onde sem manchas não há aprendizado, só não havia as manchas. Esses pequenos desafios são uma maneira de aprender. Assim que saí da estação eu me despedi delas. Provavelmente nunca mais as verei e elas nunca saberão que esse ato tão banal acabou virando um tema para uma crônica. Mas um dia elas aprendem. Como todos nós aprendemos: “Bom mesmo é escada rolante” – como disse o tão sábio Luís Fernando Veríssimo.

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3 Comentários on "Escadarias"

  • Fabiane Secches diz

    Adorei. Concordo com você e com o Verissimo: “afinal todo cronista que se preze é um tremendo preguiçoso. Aliás, não preguiçoso, digamos que são pessoas que gozam dos pequenos prazeres da vida e sabem como aproveitar as maravilhas da modernidade, como a escada rolante, o controle remoto e sistema de delivery.”

    Todo cronista é, antes de tudo, um observador atento e um narrador sensível. E vc honra a sua classe. Parabéns.

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Leopoldo meu amigo…gostei muito…e fiquei com inveja das duas crianças ainda por cima.

  • Sérgio diz

    Lá no interior, a gente gosta é de “mudernidade”, principalmente, quando se é criança.

    Quando pequeno brigava para não pegar a escada “normal”, no shopping… Porta que automática então é o “must”. Aposto que o melhor de Brasília o “mais melhor de bom” era poder andar na esteira que fica no subsolo do congresso. Bom, é que no centro oeste a gente deve pensar meio parecido com o Veríssimo.

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