Pinduca

Pedro Duarte Carvalho nasceu em uma família de classe média, sempre simpático com todos e com aquele sorriso largo no rosto. Pedro Duarte Carvalho (Duarte de parte de mãe e Carvalho de parte de pai) era um nome sisudo demais para sua feição de bonachão. Pinduca era seu nome. O Pinduca era mais Pedro Duarte Carvalho que o próprio Pedro Duarte Carvalho. Todos o conheciam como Pinduca, desde criança. Dezenas de vezes Pinduca tomou falta por não reconhecer quando o professor chamava um tal de Pedro Duarte Carvalho. Pinduca era Pinduca.

Marta Bragança Machado sempre foi séria. Um pouco cabeça dura às vezes, tenho que admitir, mas sempre uma grande amiga. Ela nunca teve apelido nenhum. Marta Bragança Machado sempre foi Marta Bragança Machado. No máximo Marta Bragança Machado foi apenas Marta. Havia apenas algumas variações como “Senhorita”, “Senhora” ou “Dona” (o qual ela odiava) anterior ao Marta. Marta era Marta.

Sou amigo do Pinduca desde que ele era chamado de Pinduca. Marta eu só conheci na faculdade. Tínhamos muitos amigos comuns, mas eles não se conheciam. Fui o responsável, um grande motivo de orgulho, pelo primeiro encontro dos dois. Nunca esquecerei de tal momento:

– Faaaala Pinduca!!! Chega aqui que quero te apresentar aquela amiga minha que tanto te falei. Pinduca, esta é a Marta. Marta, este é o Pinduca.

– Pinduca? Isso é nome de gente?

Algo que nunca acreditei foi em amor à primeira vista. Não existe essa coisa de “química”, “almas gêmeas” ou “karma”. Talvez paixão, daquelas arrebatadoras. Que te incendeia como pólvora. Mas no fim é apenas mais um daqueles ralados que ardem até seus olhos lacrimejaram, mas que se curam com um pequeno Band-Aid. Amor sincero é diferente. É preciso conhecer para amar alguém. Seus hábitos, gostos e até birras, e só depois disso você pode realmente ter certeza que ela é Aquela pessoa (se é que algum dia você pode ter certeza disso). Apesar dessas minhas convicções, Marta e Pinduca tiveram certeza nesse breve encontro que ficariam juntos para sempre.

Começaram a namorar no mesmo dia. Marta e Pinduca, ninguém poderia imaginar. Mesmo assim todos adoraram o novo casal na turma. Com excess”ao de um pequeno detalhe: Marta nunca admitiu que namorava um Pinduca. “O nome dele é Pedro Duarte Carvalho, e não Pinduca!” como incontáveis vezes já a ouvi bradar. É engraçado como namorada nunca chama o namorado pelo apelido. Acho que provavelmente devido a um sentimento de exclusividade. Algo como “só eu o chamo pelo verdadeiro nome!”. E depois não se devem sentir muito confortáveis para declarar que namoram algum “Cabeção” ou um “Melancia”. A única concessão é se for um apelido próprio, só do casal, como “Pimpão” ou “Tchuquinho”, afinal a exclusividade continua. Mas Marta ia além. Ela se recusava terminantemente a aceitar que Pinduca era (e sempre foi) Pinduca. No começo até achávamos engraçado tal atitude, mas esperávamos que com o tempo ela se conformasse, fato esse que nunca ocorreu.

Casaram-se 2 anos depois. Soube que teve gente que não compareceu por não saber que o Pedro Duarte Carvalho que estava no convite na verdade era o bom e velho Pinduca. O padre teve ordens expressas de não mencionar o nome Pinduca em nenhum momento. Marta ficou brigada comigo alguns meses só porque no meu discurso eu me referi ao Pinduca como Pinduca. Convenhamos, eu o conheci Pinduca e não me sentiria confortável se o chamasse com outro nome que não Pinduca.

Era um casal feliz. Nunca vi tamanha harmonia em um relacionamento, apesar de serem tão diferentes. Acho que foi por isso que deu tão certo. Um completava o outro. Separados, cada um tinha seus defeitos, suas particularidades. Mas juntos eram mais que um casal perfeito, era a pessoa perfeita. Um parecia anular os defeitos do outro. Por incrível que pareça, preferíamos sair todos juntos que apenas com a Marta ou com o Pinduca. O problema era conseguir chamar o Pinduca de Pedro. Às vezes era irritante a cobrança da Marta:

– Alô? Fala Marta! Tudo bem? Chama o Pinduca que é urgente!

– Tudo bem Leo! Mas Pinduca? Aqui não tem nenhum Pinduca.

– Marta é sério! Chama o Pinduca, por favor.

– Desculpe, mas acho que você se confundiu. Aqui só mora o Pedro, não esse tal de Pinduca.

– Bom, então avisa esse tal de Pedro que o Pinduca acabou de perder o último ingresso para o jogo.

Apesar desses pequenos incidentes, Pinduca nunca achou ruim dessa cobrança da Marta em cima de seu nome. Nunca entendi bem o porquê. Talvez ele nunca gostou de ser chamado de Pinduca, ou a amava tanto que relevava essas pequenas picuinhas. O fato é que perdemos o Pinduca para esse desconhecido Pedro. Pedro era legal também, talvez até mais que o Pinduca. Mas Pinduca era aquele velho amigo de quem tínhamos saudades.

Nunca mais vimos o Pinduca. Em compensação, vimos um Pedro feliz. Acho que no final das contas perder o Pinduca não foi assim tão ruim.

Compartilhe!

4 Comentários on "Pinduca"

  • Eu sempre esqueço o nome do pinduca mesmo. Já corrijo e tiro satisfação com o revisor (no caso, eu mesmo).

    Valeu juliana!

  • Juliana K. diz

    Sem querer ser preciosista, mas não pude deixar de comentar: afinal o nome do sujeito era Pedro Duarte Carvalho ou Pedro Duarte Coelho (vide 8o. parágrafo)? Taí uma prova de que para você só existia o Pinduca mesmo e não o tal de Pedro…

    Boa história.

  • Juliana K. diz

    Disponha!

  • muito louco didão aii oo!…
    muito bom….
    !!!!
    pinduca isso é nome de gente…!
    rsrsrs….!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *