Lágrimas de Matias

Não sei se essa pequena história é real. Não sei se posso considerar um conto de natal. Não me importo. Não tem mensagens bonitinhas ou crianças felizes (aliás, há crianças felizes, mas não passam de meros coadjuvantes). E para piorar ainda comecei o texto com uma negação.

Que imagem temos quando falamos em natal? Papai Noel, árvores de natal, presentes e neve, muita neve. Justamente essa a fixação de Matias, em sua cidadezinha de interior. Nunca havia visto neve na vida e provavelmente nunca veria. Não era exatamente uma cidadezinha, na verdade era um vilarejo, há 50 minutos da “cidade” propriamente dita. Entenda “cidade” como um lugar que agregue uma igreja, uma pracinha, um mercadinho (e, dizem as más línguas, uma casa de pernoite). Essa era todo o mundo de Matias, pequeno demais para caber neve.

A primeira vez que Matias viu neve foi em uma ilustração em um livro muito antigo, e aquela capa branca cobrindo todo o desenho o fascinava. Imaginava que textura poderia ter. Seria como andar nas nuvens? Macio como floquinhos de algodão? Cheiroso como espuma do sabão de coco? Mistério. Não entendia por que nunca nevava em seu pequeno vilarejo.

E a festa que fizeram na chegada do primeiro refrigerador na cidade? Aquele congelador branquinho só atiçava mais a curiosidade de conhecer a neve de perto. Diziam que caiam do céu em pedacinhos tão macios como pequenas folhas. Imaginava pequenos anjinhos descendo do céu.

Matias cresceu, apaixonou-se e casou-se com a primeira e única mulher que realmente amou. Clara era seu nome. Clara como neve, sempre a elogiava. Companheira, nunca o abandonou. Estava sempre ao seu lado, inclusive no fatídico episódio em que inundou a igreja de sabão ao tentar produzir uma neve artificial. Ainda o apoiava, mesmo tirando sabão dos santinhos barrocos.

Era uma tradição. Todo ano Matias e Clara cobria o gramado de sua casa com um grande tapete de algodão, luzes piscando e fazia a festa natalina da cidade. Mesmo franzino, Matias se vestia de vermelho e colocava uma barba branca para receber as crianças em seu tapete branco. Clara distribuía seus famosos biscoitos de nata para todos.

Assim foi por cerca de 60 anos. Matias e Clara. Até o dia em que Clara não mais pôde acompanhar o marido. Ela se foi, em plena véspera de natal. Fora levada por anjos, diziam todos. Nessa noite Matias não vestiu sua tradicional veste vermelha. Recolheu-se e chorou. Choro gelado. Choro dolorido. E o inacreditável aconteceu. Neve. Neve em pleno verão. Nevava como se fossem as próprias lágrimas de Matias.

Nevou durante dias. As crianças maravilhadas amontoavam-se e jogavam neve uma nas outras. Diziam que era algum milagre. Chegavam pessoas vindas de dezenas de cidades faziam a novena em frente à casa de Matias. O natal mais lindo de todos os tempos. O natal mais dolorido.

O verão passou e com ele a neve dissipou. Matias retornou à sua vida normal. Mantinha uma lojinha no centro da cidade, jogava dominó com o seu Domingues e o jovem Geraldo e tomava sua cervejinha junto com o Manuelzão, o dono do boteco. Não parava mais um minuto, sempre se ocupava ajudando na igreja, construindo uma edícula na casa da Dona Edite ou criando suas galinhas.

O ano passa e novamente o natal dá as suas caras. Matias não mais conseguia se esquivar da memória de Clara. Não montou seu tapete de algodão nem enfeitou o telhado de luzes. Nunca mais haveria biscoitos de nata na porta de casa. Pôs-se novamente recluso. E a cidade foi tomada por uma fina neve que caía. Bonecos de neve brotavam em cada esquina. Garotos improvisavam trenós. Casais passeavam maravilhados com tal cenário. A cidade novamente viva. O natal alegrado pela tristeza de um.

Todo ano era a mesma coisa. Já havia se transformado numa tradição. Neve, neve de verdade. Tanta dor. Matias não podia mais viver assim. Decidiu então que não mais sofreria. E a cidade aguardava ansiosamente pela neve que nunca mais cairia.

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7 Comentários on "Lágrimas de Matias"

  • malena diz

    gostei muito até o fim. por que ele tinha que morrer? é natal!

    mas foi bem bonitinha a história. feliz natal!!

  • Aí q está… Quem disse que ele morreu? Talvez ele tenha superado a perda. Quem sabe?

  • Aninha diz

    que lindo!

    acho que era a Clara que falou para os anjos deixarem a neve cair para que o Matias superasse a saudade… que lindo!

    FELIZ NATAL!

    saudades…

  • Caraca, senhor! Assim, nóis arrepêia!

  • Pedr diz

    Arrepêia mesmo.

  • Pedro diz

    Apertei “enter” antes da hora…

  • Raquel diz

    Muito lindo Leo, uma verdadeira fábula de Natal……

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