Homem de Família

Todos no bar se viraram para olhar aquela mulher que entrava assim tão bruscamente. Sem levantar a cabeça, Jorge, que tomava seu choppinho sagrado de sexta, apenas olhou de soslaio. Nunca a vira antes, mas era o seu tipo de garota. “Essa é pra casar!” – como ele costumeiramente falaria. Ela parecia procurar alguém, ao bater os olhos em Jorge não teve dúvidas, ajeitou seu vestido florido, pôs o dedo em riste, caminhou em sua direção com ar indignada e esbravejou:

– Jorge! Seu viado! Você esqueceu de pegar o nosso filho no colégio de novo! Não quero mais ouvir suas desculpinhas! Volte já para casa e peça perdão para ele!

Jorge, com seus 34 anos, nunca se casou, nunca teve filho algum (pelo menos que ele saiba) e menos ainda prometeu algo sobre buscá-lo no colégio (de novo). Jorge mantinha sua cabeça baixa. Vinha de uma família tradicional do interior paulista e desde a infância aprendia os valores familiares. Casar na igreja, respeitar a esposa, dar o máximo para os filhos, todas aquelas coisas que ensinavam nas chatas aulas de catequese nos sábados. Jorge admirava seus pais por conseguirem seguir tal cartilha ao pé da letra. 40 anos de casados e ainda se amavam, se namoravam, passeavam de mãos dadas. Jorge cresceu com aquele sonho de infância de encontrar alguém, constituir família e (como diria Belchior) ser como seus pais.

Mas algo deu errado no caminho. Virou um bom-vivant de primeira. Playboy, almofadinha, filhinho-de-papai, mimado, é só escolher o adjetivo. Desconhecia a palavra “relacionamento”. Solteiro convicto. Comeu famosas, chutou modelos, destruiu lares, produziu muitas lágrimas desiludidas sem se arrepender em momento algum. Aproveitar a vida. Liberdade. É tudo que um homem deseja. Agora vem uma louca qualquer cobrando desculpas para um filho que nunca teve?

Jorge terminou de beber o último gole de seu chopp, respirou fundo, pensou em seus pais, e resignadamente respondeu com uma voz pesarosa:

– Sim senhora.

E todos do bar acompanharam a figura sair cabisbaixa atrás de tal mulher. Há quem diga que apesar disso conseguiram ver um discreto sorriso no rosto de Jorge.

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4 Comentários on "Homem de Família"

  • Pega, mata e come. Curti o texto, léo man! Desenvolveu, expricô e matou a pau.

  • Juliana K. diz

    Ironicamente delicioso…bom texto!

  • Hehehe! Coitado…

    Suas crônicas são ótimas!

    Beijocas.

  • gerpo diz

    mto boa

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