E nós que éramos tão civilizados…

O ser humano é um animal social, e para isso são necessárias algumas regras básicas de convivência. Hamurabi com seu dente por dente, a política de Platão, direito romano, o estudo da moral (das inúmeras correntes filosóficas), Jesus, Buda ou Maomé e suas religiões, as cortes francesas e as aprimoradas etiquetas, Gandhi com o pacifismo, a constituição de 1988 (e suas inúmeras emendas) e até as regras do condomínio são algumas tentativas de transformar esses seres humanos em animais um pouco mais domesticáveis. Afastamos daqueles primórdios daquilo que chamamos de humanidade, onde nós homo-sapiens extingüimos ferozmente qualquer traço dos concorrentes neanderthals. Fugimos das leis das selvas, onde o mais forte sobrevive subjugando o próximo. Temos direitos iguais, oportunidades iguais e respeitamos nossos companheiros.

Pelo menos é o que está escrito durante milênios de aprimoramento das relações sociais civilizatórias.

Todo esse esforço em busca de uma sociedade mais aceitável, mais justa e equilibrada está ruindo com o advento de uma única invenção: o automóvel. Ah, se Henry Ford soubesse em 1908 que seu Ford T geraria um retrocesso no processo civilizatório, hoje seríamos pessoas muito melhores.

Stevenson já previa uma fórmula para transformar um senhor respeitável na sociedade em um poderoso monstro Mr. Hyde em seu Médico e o Monstro. Embora eu acredite que ele não imaginasse que um veículo pudesse ser o catalizador de tal transformação. Vi muitas mulheres pudicas (“pudica” – eu tinha que usar essa palavra em algum lugar) virarem vulgares, sujas, cheias de palavras indelicadas. Acompanhei inúmeros gentlemans (daqueles abrem a porta do carro para uma dama) acelerando para não dar passagem para senhora alguma. Presenciei pacifistas (que protestam contra a invasão territorial dos EUA no Iraque) invadindo faixas alheias com propriedade absoluta.

Insanidade. O fim do bom-senso. No trânsito existe apenas uma verdade absoluta: “a culpa sempre é do outro”. Não fazem parte do léxico automotivo as expressões “desculpe” ou “pode passar”. Não adianta argumentar sensatamente “Deixe-o passar, que diferença faz?”; “O sinal está fechado mesmo.”; “Não estamos com pressa.”; “Para quê xingar o cara se você acabou de fazer igual no cruzamento anterior?”. O pára-brisa do automóvel nubla nossa visão, o cheiro de gasolina altera nossos sentidos, as lanternas dos carros vizinhos geram ódio.

O senhor Marcos por exemplo. Pai de família exemplar. Moral rígida. Freqüenta a igreja todos os domingos. Vizinho de Estela. Aquela vizinha exemplar. Essa uma senhora com seus 60 anos. Carinhosa e zelosa.

Ambos chegam ao prédio no mesmo horário. Marcos abre a porta para Estela que agradece prontamente. “Por Favor! O Prazer é meu.” Estela pega a revista com o porteiro e aproveita pega a de Marcos também. “Aqui está a sua Veja.” Marcos agradece enquanto segura a porta do elevador para Estela entrar. “Obrigada!” Ela entra aperta o botão de seu andar e de Marcos também. “Quinto andar, né?” Abre a porta do quinto e Marcos pede licença educadamente. “A senhora poderia dar uma licencinha, por favor?” Marcos sai e se despedem. “Até mais, manda abraços para sua família.”

É uma cena comum. Plenamente civilizada e condizente com as personalidades de cada um. Muito diferente da personalidade que adquirimos diante do volante.

Ambos chegam ao prédio no mesmo horário. Marcos dá um empurrão na Estela pois ela estava demorando muito para abrir a porta. “Ah, tinha que ser velha!” Estela pega a revista com o porteiro e Marcos corre para pegar a dele. “Filha da puta! Você pegou a revista antes que eu!” Marcos tenta fechar o elevador antes que Estela pudesse entrar. “Tá com pressa viado?” Estela aperta o botão do seu andar e Marcos o dele. “Só porque você mora no andar mais alto que o meu você pensa que pode ficar atrapalhando a entrada?” Abre a porta do quinto e Marcos brada para Estela sair da frente. “Passa por cima, Caralho!” Marcos passa por cima e se despedem. “Vai pilotar o fogão!” “Ah, vai se fuder!”

E nós que éramos tão civilizados…

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3 Comentários on "E nós que éramos tão civilizados…"

  • Camila diz

    Rs….adorei a analogia, muito boa!

  • Raquel diz

    ótima a analogia com o elevador. posto assim tudo fica mais claro….

  • Juliana K. diz

    Parafraseando uma amiga ás no trânsito, “tome por verdade absoluta, nunca se esqueça, quando está dirigindo você sempre está certo, os outros é que estão errados”. Passou no sinal vermelho, “vai se f*, a preferência era minha!”, passaram no sinal vermelho, “dautônico filho da p*!”.

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