Recomeço

Era mais um verão daqueles em que passava na casa da família no interior. Dessa vez era em Monte Verde. Mas também tinha parentes em Piraju, em Avaré, em Iracema e até em Itararé. Há 25 anos era a mesma coisa. Revia parentes, tomava sorvete na pracinha e ouvia aqueles papos desinteressantes dos primos, que embora da mesma faixa etária, com idéias totalmente opostas.

Tudo levava crer que era mais um daqueles feriados monótonos. A situação mudou quando ele a viu. Uma sensação de déjà vu. Conhecia aquele rosto de algum lugar. Um frio gelou sua espinha quando ela o reconheceu.

– Francisco? É você? Quase não o reconheço. Faz tanto tempo, né?
– Sim, muito tempo mesmo!

Não queria matar o assunto, por isso continuou a conversa. Mas sua memória não ajudava. Sim, certamente a conhecia. De onde? Não sabia. Vinham algumas imagens na cabeça, fragmentos esparsos, empoeirados pela memória. Um vestido azul, foi a primeira imagem que veio. Tentava segurar no assunto como podia.

– Aposto que nem se lembra de mim.
– Lembro. Estava com um vestidinho florido de alcinha azul. Margaridas.

Enquanto conversavam o quebra-cabeça de suas lembranças foi se montando. Era a Andréia. Conheceram-se há 5 ou 6 anos atrás nas férias que passou em Praia Grande. Começou com um sorvetinho no calçadão e terminou com um café da manhã no hotel. Depois ela simplesmente desapareceu, deixando-o desconsolado por alguns meses. Andréia não era o tipo de mulher apenas para um caso de praia.

– Aquele dia foi realmente especial.
– Eu diria… único.

Ele não sabia como entrar no assunto do porquê de sua fuga repentina, de não retornar as ligações. Não se achava no direito de cobrá-la ou pressioná-la. Até porque desejava que a conversa continuasse nesse tom agradável. Surpreendeu-se quando ela tocou no assunto.

– Você sabe por que eu fugi aquele dia, não sabe?
– Foi algo que fiz? Algo que disse?

Ainda não se lembrava muito bem do que ocorrera aquele dia. Sabia que conversaram bastante, mas não lembrava exatamente o que havia dito.

– Sim, foi algo que disse. Lembra-se da nossa longa conversa? Eu lembro. Perfeitamente. Pensei sobre ela durante muito tempo. Foi muito duro para mim.
– Desculpe… eu…

Realmente não podia ter dito algo assim tão marcante. Sempre fora um verdadeiro gentleman, não diria nenhuma palavra dura para uma dama. Não pensava em outra coisa no momento além de se desculpar.

– Não, não precisa se desculpar. Você tem razão. Fiquei muito magoada. Refleti muito sobre o assunto. Tal conversa me fez enxergar muita coisa. Abriu meus olhos. Eu devo muito a você.
– Não, você não me deve nada.

Embora gostasse muito da idéia de tê-la em dívida com ele, achou melhor não colher os louros da vitória por não saber nem exatamente de quê estavam falando.

– Oh, sim, eu devo. Mas são águas passadas. Já está superado. Espero que para você também. Sem mágoas, certo?
– Absolutamente.

Que mágoa teria? Apenas pensava em não mais perdê-la.

– Que tal encontrarmos hoje à noite? Só me prometa uma coisa: nunca, mas nunca mesmo, repita para mim aquilo que você disse naquela nossa conversa!
– Prometo.

Não importava mais o que ele havia dito. Estava perdoado. Era um recomeço, uma nova chance. Agora é só tomar cuidado e falar o menos possível.

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2 Comentários on "Recomeço"

  • Camila diz

    Leo, acho que vc tem alguma obcessão sobre tomar sorvetes em praçinhas, não acha não?

  • Haya diz

    Muito bacana o jeito como foi despertada a curiosidade no leitor.

    Meus olhos não liam com uma velocidade incrível, não se prediam a palavra por palavra, apenas para descobrir o que tinha sido dito…

    É uma pena que o fim seja sempre o mesmo…disperte a curiosidade, mas não prenda o leitor depois de desvendada…

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