Coisas de criança

Quanta coisa aprendemos quando criança. Não coloque o dedo na tomada. Não coma coisas que encontra pelo chão. Não coloque a mão em uma panela no fogo. Apesar de tantos avisos e ensinamentos, insistimos a contrariar os avisos e experimentarmos por nossa conta. Certamente tomamos muitos choques e quedas pelo caminho. É que chamamos de viver. Viver muitas vezes é mais eficiente que aqueles sermões de “não faça” que tantas vezes ouvimos. Assim crescemos, assim aprendemos.

Aprendemos a confiar em nossos pais. Quantas vezes já não nos arrependemos de levar aquele agasalho que sua mãe tanto insistiu para que botasse? Sempre preocupados e pensando no seu bem-estar. Experiência. Essa é a palavra. Eles já viveram tudo aquilo que você passou ou está passando: aquela vontade de riscar paredes, a curiosidade de desmontar os brinquedos, aquele temor de ligar para aquela garota ou aquele primeiro porre. Escutamos e aprendemos.

No fim crescemos. Aprendemos. E descobrimos que eles mentiram.

O mundo não é como nos ensinaram. Quando somos pequenos, se acreditamos em nossos pais, somos bem-educados e elogiados. Quando crescemos, se continuarmos acreditando, viramos otários e desiludidos.

Comi todo o feijão do prato e não cresci forte e bonito. Trabalho 12, 14 horas diárias e estou longe de ficar rico. Procuro e não encontro aquela princesa encantada prometida. Sou honesto e fiel, mas nunca valorizado por isso. Procuro ser bom com os outros, mas não há um Papai Noel no final do ano para ser recompensado. Os desonestos não são punidos no final. O mau-caráter sempre fica com a mocinha.

Na vida adulta não há espaço para “crianças”. Hollywood não existe. O romantismo morreu há muito tempo. As últimas peças de resistência sofrem a via-crucis. Não há charme em ser bom, enquanto há uma aura sexy em ser mau. A malandragem é fator diferencial (eu diria até crucial) na ascensão de uma carreira. Ter princípios é antiquado. Fidelidade é careta. Honestidade é burrice. Apanhamos e aprendemos.

Aprendemos? Ou desaprendemos? Em quem confiar? Em nossos pais que sempre zelaram por nós ou em um mundo que sempre nos acerta na cabeça e no coração?

Ser uma criança eterna, sonhar, viver, buscar e por muitas vezes chorar e apanhar de um valentão qualquer. Ou abrir os olhos, se encaixar em um mundo canalha e roubar o lanche daquele otário fracote?

Sigo com minha decisão. Fecho meus olhos ainda com esperanças de um dia o mocinho vencer no final. Continuo em meu canto solitário, brincando com meus blocos de madeira e bolinhas de gude, esperando que um dia tenha companhia para brincarmos juntos. Talvez eu seja o maior otário do mundo, ou talvez o mundo precise da mais blocos de madeira. Alguém quer brincar comigo?

Compartilhe!

13 Comentários on "Coisas de criança"

  • Rafa diz

    Pois é, agora eu entendi a conversa que a gente estava tendo naquele bar. Mas não achei tão deprê assim, desabafo talvez. Mas apesar de sermos otários, ainda existe um certo espaço para nós, só não achei, mas que existe, existe. Fique tranquilo que o que é nosso tá guardado, hehehehe.

  • mc diz

    Adorei!! Um texto lindo, sincero e real.

    E acho que a melhor coisa é mesmo se manter fiel aos seus princípios, como você foi ensinado, e que formam a sua verdade.

  • Paulo diz

    Joe, tem todo um Cronistas Reunidos ( mais os agregados ) nesse mesmo barco. Falar mais e concordar pontualmente com tudo que foi levantado ia ficar chato. Só para fechar: além de incisivo, muito bem escrito, mamutinho.

  • Adorei a crônica, e sei que tudo isso é verdade…em certos momentos, tento descobrir o que é “certo” e o que é “errado”, e acabo descobrindo que tudo isso é relativo.

    Mas continuo acreditando num mundo melhor, e tentando fazer o que é “certo”.

    Parabéns pela crônica, muito bem elaborada!

    Bjos!

  • Camila diz

    Leozinho, não sofre assim não que eu brinco com você tá? Só não pode ser de médico! Rs…

  • Pedro diz

    Leo, é isso. Não tenho nem o que comentar. Essa saiu daquele nó no meio do alma. Nó górdio.

  • Camila R. Souza diz

    Lindo, Léo!

    A gente devia fazer um adesivo “Eu acredito em Finais Felizes”…

  • Valeu gente!

    Vocês que ainda me dão esperança neste mundo!

    Abrs!

  • malena diz

    viiiiche! muita gente sente o mesmo e essas pessoas sempre acabam se encontrando no final – final feliz, lógico!

  • paula diz

    Achei que cheguei um pouco atrasada…já fechou a mão ou ainda dá tempo de brincar com você?

    Parabéns!

  • Anônimo diz

    Nem me falem em chegar atrasado… nem de enfiar o dedo… mas eu quero brincar sim.

  • Raphael diz

    Oi, fuçando na net achei seu site..adorei a crônica, é bom saber que em outros parques q eu não conheço ainda tem pessoas brincando. o/

  • Maria Vani diz

    Ainda que não tenha muitos blocos de madeira, se vc emprestar os seus a gente pode brincar…
    Parabéns pelo texto!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *