Sem palavras

Era uma festa à fantasia, a mais original ganhava um prêmio especial. Lá Caio e Adriana se conheceram. Caio pensou em que poderia ir vestido e acabou fazendo uma fantasia de um “orelhão”, afinal adorava conversar com todo mundo. Se vestiu todo de azul, montou um telefone com uma coberturinha laranja nas costas e saiu falando para todos: “liguem para mim!”. Do outro lado da festa estava Adriana, abafando com sua fantasia que achava que era original, com um tubinho azul e um “orelhão” nas costas ouvindo dezenas de “me dá seu telefone”. Quando se encontraram não acreditaram na coincidência. 2 “orelhões” na mesma festa? “É que eu gosto muito de conversar” Adriana se justificou. Foi uma empatia imediata. Ambos perderam em originalidade, derrotados por um ornitorrinco de cuecas e suspensórios, mas passaram a festa inteira conversando, melhor que qualquer prêmio especial.

Assim seguiu o relacionamento entre eles. Intermináveis conversas. Eram os primeiros a chegarem e os últimos a saírem. Falavam sobre relacionamentos, sobre política, sobre filosofia, sobre infância, sobre religião, sobre artes e Adriana ainda esbanjava conhecimento sobre futebol. Quando os dois disparavam a falar não havia quem conseguisse encerrar a discussão. Muitos tentaram acompanhar, mas aqueles que não tinham assunto o suficiente logo desistiam, e aqueles cheios de cultura não possuíam resistência física nem corda vocal para resistir até o fim da conversa. Sempre sobravam apenas os dois na mesa.

Logo se tornaram inseparáveis. Começaram a namorar. Eram constantemente vaiados no cinema por não pararem de falar. Passavam noites em claro discutindo questões metafísicas. O sexo era bom, mas os embates sobre o feminismo e o orgasmo eram geralmente melhores e mais demorados. Sempre tinham uma teoria diferente para cada aspecto. Metade do salário de Caio era para pagar sua conta telefônica, e antes que falisse resolveram morar juntos.

Dormiam todos os dias depois das 2 da manhã, conversando abraçadinhos na cama até que o sono derrotasse o assunto. Era de praxe se atrasarem no trabalho por ficarem conversando demais no café da manhã, afinal com o sono derrotado, poderiam terminar a discussão, esta aparentemente interminável. Tanto coisa para falar para tão pouco tempo. Acabaram se casando. O Padre teve que brigar com os noivos para que parassem de cochichar durante o próprio casamento.

Durante anos conversaram, dialogaram, discutiram, comunicaram, trocaram idéias, desabafaram, discorreram, palestraram, argumentaram, alegaram e foram felizes.

Um dia Caio acordou e percebeu que não havia mais o que ser dito. Tudo que ele gostaria de dizer já o tinha feito. Sorriu para a mulher, abraçou-a ternamente e simplesmente emudeceu.

Adriana em nada estranhou o silêncio de seu companheiro. Entendia e sentia a mesma coisa. Acompanhou seu silêncio e seu sorriso, retribuindo o abraço com um delicado beijo.

Assim, com um sorriso no rosto, continuaram em silêncio para o resto de suas vidas. Afinal, palavras já não eram mais necessárias.

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1 Comentário on "Sem palavras"

  • Camila diz

    Nunca uma fantasia de ornitorrinco de cuecas e suspensórios ganharia em originalidade de um homem-orelhão. Ornitorrincos são feios, orelhões são redondinhos e convidativos.

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