Salve Dona Shigueko

Não sei por onde começar. Ainda mais para falar sobre o fim. Desculpe-me se esse texto fique um tanto sem nexo, mas vou escrevendo conforme vou pensando. Terça-feira, dia 16 de junho de 2004, perdi minha última avó, a já saudosa Dona Shigueko Nakata, ou simplesmente Bá (contração de “baatchan” que significa avó em japonês). Foi um descuido, um escorregão, um tropeço, uma queda besta, uma perna quebrada, uma operação simples e um pós-operatório complicado. Idas e vindas pela UTI até que, aos 87 anos, a minha Bá não resiste.

Sempre tive uma relação um tanto quanto distante de meus avôs. Morava em Brasília e só os via nas férias de final de ano. E ainda tinha a dificuldade lingüística. Eles mal falavam português e eu na minha eterna ignorância não entendia mais que 2 palavras seguidas de japonês. Comunicávamos como podíamos. “Orrá-iô”, “arigatô”, “oishii”, “futon”, “makurá”, “yassuminassai” e de vez em quando algum “bacá!”. Mas não tinha aquela coisa de avôs de contar histórias, causos, ensinar bobagens e comprar doces. Talvez seja a educação oriental, pois eram mais fechados. Ou eu que me fechei? Acho que ambos. Não sou das pessoas mais fáceis de se aproximar. Não sei se por medo, insegurança ou simples desprendimento, eu sempre me mantenho a uma certa distância das pessoas até que alguém me estenda a mão. Não digo isso com orgulho, mas nunca me senti muito à vontade com eles. Eram quase estranhos para mim. Seria um tanto clichê falar que gostaria de ter me aproximado mais deles, de fato gostaria, e sabia disso, mas não tinha, e até hoje não tenho, jeito de lidar com as pessoas, de invadir e compartilhar seus mundos.

Recebi a fatídica notícia sobre minha Bá numa quarta-feira após o almoço. Minha mãe dizendo para voltar para casa quanto antes. “Mas eu ainda tenho que terminar umas coisas aqui no trabalho.” Ainda não tinha percebido a importância da notícia. Demorei para assimilar o fato. Só percebi realmente a relevância do ocorrido em seu velório.

Sempre achei uma bobagem todo o ritual em torno da morte. É um momento de catarse combinado: Chore agora! Com um monte de gente arrependida e agoniada prestando respeito em morte o que deveria ter prestado em vida. Achava mais saudável, útil e menos hipócrita que cada um refletisse individualmente sobre a pessoa, que restasse a admiração e seu legado. Sem pirotecnias e exibicionismo que segue todo o ritual.

Tive que mudar minha opinião ao ver o velório da Bá. Vi o quanto era amada e venerada. Pude perceber o quanto deixou, o quão querida e numerosa é nossa família e que minha Bá é uma das responsáveis por isso. Passei a admirá-la mais. Não haviam ressentimentos, culpas e arrependimentos. E sim uma profunda estima e agradecimento. De fato todo o ritual ainda me soa estranho, mas passei a respeitá-lo.

Não chorei momento algum. Doía, mas não saíam lágrimas. Não choro em filmes, nem por mulheres ou crianças. Não choro. Não consigo. Meu coração é tão seco assim? Senti-me mal por não ter chorado. Mas sentiria falso se chorasse. Distancio-me tanto das emoções?

Distância. Talvez seja essa a palavra. Eu já não estava em mim, estava vagando como um mero espectador diante todo o drama. Refletindo sobre o ocorrido, viajando em digressões, tirando conclusões. Agarro-me ao racional e enxugo meu coração.

Chegamos ao humilde mausoléu da família Nakata. Não conseguia segurar minha mente fugidia. Escapava observações inoportunas que guardavam para mim “Nossa, o mausoléu é de azulejos iguais ao da cozinha da casa da Bá. Devem ter comprado de milhar e aproveitado as sobras. Bom, ainda bem que não são iguais aos azulejos do banheiro”. Já me disseram que sou um piadista compulsivo. Humor como forma de defesa, de distância. Assim fujo novamente.

Tijolos, cimento e argamassa. Esse é o final de 87 anos de vida. Tudo termina com um pedreiro lacrando o sepulcro. Sem romantismo ou clímax. “João, traz mais areia que o reboco ainda tá mole” Naturalismo prevalece.

Uma vida sem avôs. Agora eles se foram. Não serei hipócrita dizendo que sinto a falta deles. Mal os conhecia para tanto. Mas sem dúvida resta-me uma tristeza no peito. Não por eles, mas por nós que ficamos. Eu tenho uma formação espírita, e no fundo creio, e torço, que estejam bem onde estiverem. Sei que estão. É um pensamento reconfortante, ainda que possivelmente enganador. E mesmo os mais céticos deveriam pensar que acabou. Não há nada depois. Portanto sofremos nós que estamos vivos. Que sentimos falta, apego e saudades. Sinto tristeza por nós. Por meu pai, minha mãe, minha irmã, meus tios e primos. Não pela minha Bá. Sei que ela está bem. Que é amada e respeitada. Resta-nos seguir em frente. Salve Dona Shigueko!

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9 Comentários on "Salve Dona Shigueko"

  • Camila diz

    Poxa Leo, sinto muito.

  • Laris diz

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Grande Leopoldo…

  • Leopoldo diz

  • Laris diz

    Pois é, e não é que você está finalmente encaminhado pra fugir do país?… Tenho que te dar os parabéns, e os tapinhas nas costas – coisa impessoal – congratulando essa nova etapa.

    Felicidades, Leopoldo. Para você, e para sua bá.

  • Luciana diz

    Pôxa me identifiquei muito. Minha avô morreu semana passada e tava com 100 anos, também fui uma cabeça de cabotchá e sempre fui distante, tambem tive uma lacuna linguística, tambem não chorei, também senti a sua partida, mas a pilhinha dela tinha acabado…

  • Mila* diz

    Sei como é… juro…

    bjao, Leo!

  • Ellen diz

    Lindo. Com certeza sua vó não precisava entender muito a linguagem escrita e falada para saber que todos a amam muito.

  • Shigueko Ishiy diz

    Leopoldo, não se assuste. Não sou a sua avó que encontrou um computador lá do outro lado (embora possa ter alguns, ou não ?). Sou apenas uma xará da sua amada batiam. Distraidamente estava no google procurando ” coisas” para passar o tempo e eis que digitei meu primeiro nome…e aí você que é sutil, sabe do restante. Tenho um filho de 24 anos. Já perdi meus pais, os avós então, nem conheci direito. Parece que é assim mesmo em muitas famílias, poucas palavras em japonês, gestos contidos. Uma pena. Já com meus netos (se um dia os tiver) pretendo ser diferente. Valeu a dica! Beijos. Shigueko 07/04/2006

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