Um Conto Educacional

Tudo começou com uma simples manchete “Culinária ajuda a desenvolver a criatividade”. Augusto César dos Montes Gusmão, Professor Doutor em pedagogia, versado em 5 línguas (sendo 1 delas já morta), consultor sênior da Revista “La pédagogie du monde”, membro vitalício do conselho de um dos maiores e mais conceituados vestibulares do país, e um gourmet de mão cheia, teve uma brilhante idéia ao ler essa inofensiva matéria no jornal dominical. “Culinária! Culinária!” Esbravejava em plenos pulmões o Professor Doutor, versado em 5 línguas, consultor sênior, membro vitalício do conselho e gourmet, pelos corredores ao chegar na Universidade. A idéia era simples, nem precisava ser um Professor Doutor, versado em 5 línguas, consultor sênior, para concebê-la. Mas precisava sim ser um membro vitalício do conselho de um dos maiores e mais conceituados vestibulares do país para aplicá-la.

Enviou uma carta de 25 páginas a todo Conselho de Professores Doutores:

“…com o escopo de açular tão dileto predicado como o engenho de nossos juvenis infantes, eu, Augusto César dos Montes Gusmão, Professor Doutor, versado em … venho a alvitrar uma interrogação de suma … por que não entranhar uma questão de culinária no preeminente exame dito vestibular? Sacou a parada?”

Apesar de não ser entendida em sua totalidade (tiveram dificuldades de decifrar como sacar uma parada), tal sugestão não teve dificuldades de ser aceita pelos membros do conselho, todos Professores Doutores e glutões de primeira.

Aprovado prontamente pelo MEC, tal questão foi preparada e anunciada, mas não sem polêmica. “Como meu filho passará no vestibular se ele não tem base culinária nenhuma”, “o governo não possui um sistema educacional que prepare o aluno para tais questões”, eram ouvidos pelos 4 cantos.

Era uma equação simples. Sem culinária, não passará no vestibular. Se não passar no vestibular, não terá diploma superior. Sem diploma superior não conseguirá um bom emprego. Sem um bom emprego, não terá futuro. Sem futuro, não será ninguém! Os atentos a novos nichos de mercado, abriram os primeiros cursinhos culinários. Eram vendidos livros de receitas junto com apostilas de concursos públicos.

Seguindo a tendência, todas as outras universidades e faculdades também apresentaram questões de cunho culinário em seu processo seletivo. Afinal eram questões mais fáceis que física ou química, e assim democratizava o ensino. Assim a cozinha foi dominando os espaços antes ocupados por redação, matemática ou outras bobagens do gênero.

O ensino secundário começou a se adaptar às mudanças. As classes não mais eram divididas em Humanas, Biológicas e Exatas, e sim em Doces, Salgados, Assados e Cozidos. Aboliram a Educação Física e a Educação Artística, já que não caíam no vestibular. As outras matérias foram perdendo relevância. Quem precisa escrever corretamente se é um cozinheiro de primeira?

O ensino primário passou a desenvolver a habilidade de descascar batatas ou separar o feijão. Uma base sólida é essencial para as crianças se prepararem para entrar em um bom colégio secundário culinário.

Claro que essa mudança estrutural no ensino não transformou a população em cozinheiros de primeira. A maioria esquecia de tudo assim que entrava em alguma faculdade de quinta. Muitos outros pegavam raiva e ficavam eternamente traumatizados por não saberem nem fritar um ovo com gema mole. Davam graças à Deus que na faculdade não precisavam mais cozinhar, afinal agora as aulas eram “voltadas para o mercado”.

Augusto César dos Montes Gusmão Neto, puxou a inteligência de seu avô. Pena que o talento culinário deva ser algum gene recessivo. Lia muito desde pequeno, aprendeu com seu avô 5 línguas (sendo uma delas morta), discursava sobre política e filosofia, mas não sabia cozinhar. Nunca conseguiu entrar em um bom curso superior. Nunca conseguiu um bom emprego. Nunca teve futuro. Nunca foi ninguém. Não como seu avô. Esse sim era um gourmet e cozinheiro de mão cheia.

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2 Comentários on "Um Conto Educacional"

  • malena diz

    coca-cola definitivamente contém alucinógenos! amei essa crônica! e aí, leo, vc sabe fazer sushi?

  • paulo vasconcellos diz

    eu aposto que você não sabe cozinhar, leopoldo, mas a crônica estava saborosa. Vc anda comendo cogumelos? cuidado com aqueles que nascem em estrume de vaca.

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