Contra

Um dia acordou e percebeu que estava no meio da calçada. Em pé, com sapatos polidos, terno combinando com gravata, uma pasta de couro, cabelo penteado e barba bem-feita. Como ele foi parar lá? Por quanto tempo esteve dormindo? Por que não teve nenhum sonho? De quem são essas roupas? Olhou em sua volta, estava em um grande centro movimentado. Carros passando, painéis eletrônicos, prédios enormes e pessoas, muitas pessoas, uma multidão. Todos em movimentos, correndo para todos os lados, olhando seus relógios com pressa. Desordenadamente. Caos.

Sua gravata começou a sufocar, o sapato apertar e só queria voltar para casa. Largou a pasta e saiu correndo em direção a rua. Estranhamente no seu primeiro passo, toda a multidão inicia um movimento ordenado e único contra ele. Quanto mais tentava avançar, mais a multidão o empurrava na direção contrária. Trombada após trombada, desiste de lutar contra a multidão. Resolve seguir então para onde todos se direcionam. Em seu primeiro passo, a multidão se volta novamente contra. Pára. Todos voltam a andar como antes. Mas um passo a esquerda e todos para a direita. Passo para frente, todos para trás.

Olha para os lados. Assovia uma canção de algum filme. Põe as mãos nos bolsos. Simula algum desinteresse e repentinamente se atira em direção a rua novamente. A multidão reage instantaneamente contra. Pisões de pé, ombradas, cutucões, esbarrões e pouco a pouco vai progredindo até chegar na rua. Ali se deparar com um caos maior.

Todos os carros estavam amontoados em sua direção. Aparentemente todos os motoristas resolveram virar ao mesmo tempo. Ele tinha causado isso? Deu mais um passo e ouviu mais batidas. Um passo para trás, outras batidas. Para que os feridos pudessem ser socorridos e o trânsito continuasse a fluir, resolveu não se mover. Não podia arriscar causar mais acidentes. Esperaria até que as ruas estivessem vazias.

Madrugada. Ninguém mais nas ruas. Pôs a correr desesperadamente. E começou a ouvir à sua volta algumas batidas, olhou para os prédios e percebeu que as pessoas caíam de suas janelas de pijama, como lemingues. Os que sobreviviam, mesmo mancando, continuavam correndo em sua direção contrária. Parou. Não queria ser responsável por tamanho caos. Nem um passo a mais.

Passaram horas, dias, meses, anos. Ninguém parecia se importar com aquele mendigo imóvel. Nem sequer direcionavam o olhar, e quando o faziam, era com uma expressão de desprezo. Morreu na rua. Sem nome. Sem nada. Ingratos. Queria se importar menos. Queria nunca ter acordado. Queria ter sonhado mais.

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11 Comentários on "Contra"

  • Jackie diz

    Ai. Que triste.

  • É triste mesmo … Mas genial, Mamute!

    idéia linda! parabéns!

  • Rafael diz

    Olha, eu diria que vc tem um curta bastante adiantado. Parabéns. Muito boa.

  • malena diz

    caracas, muito legal. Fiquei só imaginando as cenas….relamente daria um belo curta! Faz aí em Cuba!

  • Sérgio diz

    Muito boa nerd. Isso é um exercício de realismo fantástico latino americano? (sabe como é tô contaminado com as Pimbisses da Mostra BR…). Parabéns pelo texto.

  • José Ignacio diz

    Descobrir que lemingues se jogam de penhascos foi um dos fatos mais tristes da minha infância…

  • Guilherme diz

    Pow cronistas, achei esse site por acaso e nao consigo parar de ler essas cronicas . São muito boas e bem criativas,onde o cotidiando se transforma em piada. Parabens!!!

  • Raquel diz

    Nussa.. to besta.. ideia muito muito boa.. Consegui ver as cenas ateh com efeitos John Woo!

  • Ana diz

    muito triste…… vô chorá, entrá em deperssão e morrer… buá, buá

  • lia diz

    Absolutamente emudecida. Espetacular!

  • Anônimo diz

    Que medo!!! Nunca mais eu vou dizer: “toda vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar!” vai que o mundo se desmonta e eu tenho que virar um ser imóvel até morrer!!! ai. Isso aqui tá muito perigoso, vou procurar umas tirinhas…

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