Questão de Sobrevivência

Laura queria conhecer os amigos de Luiz. Coisas de namorada. Só não sabia que eram daqueles amigos mamutes que saem para beber toda sexta naquele mesmo bar barato, decorado por mesas de metal fornecidas por uma cervejaria de quinta, onde o garçom era conhecido por Jorjão, que os munia de petiscos engordurados para acompanhar a cervejinha servida em copos americanos. Não era exatamente o lugar onde Luiz, um namorado gentil e exemplar, costumava levar sua namorada, sempre arrumadinha e perfumada. Hum… Namorada… Amigos ogros… Não parecia uma boa idéia. Mas sabe como é, ela insistiu tanto para conhecer os amigos dele em seu habitat natural. Então não havia alternativa senão levá-la ao bar do Manecão e conhecer o Fabão, o Gutão e o Neyzão.

– Ô Luizão! É essa a tua baga?

– Porra Fabão! Larga de ser viado! Respeito com a Laura!

– Uiuiui… Dando uma de machão só porque tá com sua minazinha…

Depois de incontáveis palavreados gentis referentes à mãe alheia, Laura já começa a olhar para o relógio. Estranhamente (ou não) ela foi a única que não achou graça nenhuma quando o Neyzão fez um comentário sobre a lingüicinha que o Fabão comia. Boceja algumas vezes até que no momento mais animado da conversa, onde o Gutão relembrava o dia em que o Neyzão ficou com um travesti, ela solta o famoso: “Ô mor… Vamos embora?” Diante tal argumento (e a cara de tédio de Laura) não resta outra opção a Luiz a não ser terminar seu comentário sobre o timão e partir imediatamente.

No caminho de volta a contabilização do saldo da noite:

– “Luizão”? Eles te chamam de Luizão?

– Qual o problema?

– Fabão, Gutão, Neyzão… O que vocês têm com aumentativos?

– É assim. Você tem que mostrar respeito. Imagina um marmanjão me chamando de “Luizinho”. Não pega bem.

– Pois é “Luizão”, como você muda na frente dos amigos. Nunca tinha ouvido você falar palavrão.

– É uma questão de sobrevivência. Tem que ser agressivo, marcar território. Senão eles te dominam!

– De que você está falando?

– É simples. Imagina se te chamam de “Cuzão”. O que você responde? “Seu bobo”? Não! Responde com um “E sua mãe dirige caminhão na marginal sem camisa!”.

– Que infantilidade.

– Também acho. Mas tem que impor respeito. Respeito é tudo! E um toque de criatividade também ajuda.

– Não gostei do “Luizão” que conheci hoje.

– Eu tenho que ser assim. É um mundo sujo.

– Não liga pra eles, só dizem bobagens.

– Ignorar é pior. Eles te comem vivo!

– Mas são seus amigos!

– Por isso mesmo. Os amigos são os piores. Têm mais liberdade, sabe? Por isso tem que ficar sempre atento. Em tudo que você disser, eles tentarão encontrar algum duplo sentido.

– Ai, que horror!

– É assim mesmo, portanto NUNCA, mas NUNCA mencione nada sobre “dar”, “chupar”, “pegar” e muito menos referir a qualquer objeto fálico – quanto maior, pior.

– Que paranóia!

– Sobrevivência, sobrevivência…

– Machismo! E aquele papo sobre “fio-terra”? Aposto que todos já experimentaram com a namorada e ninguém admite. Semana passada mesmo a gente…

– NÃO! Nunca ouse mencionar nada sobre isso! Eu nego até a morte!

– Por que? Isso não tem nada a ver com falta de masculinidade.

– Mas vai explicar isso para eles! Eles nunca te ouvirão. E cada palavra que disser ficará pior. E isso será lembrado por toda minha vida!

– Que exagero.

– É assim. Amigo é gente que lembra. Colocarão em minha lápide: “Luiz, aquele do fio-terra”, só para eu não ter paz nem depois de morto.

– Eu não entendo, então por que vocês continuam amigos?

– Assim são os amigos, oras. Para beber cerveja, falar sobre futebol e sacanear um com o outro.

– Aliás, eu nem sabia que você bebia, nem que gostava de futebol.

– Bom, na verdade eu só bebo com eles, sabe como é, para pertencer ao grupo. Imagina o quanto eles pegariam no meu pé se eu chegasse no bar e pedisse um suquinho de pêssego. Ridículo. O Jorjão iria me expulsar de cara.

– E o futebol? Por que nunca me disse que gostava de futebol?

– Eu odeio! Mas eu tenho que me manter informado sobre os jogos, senão não tenho assunto no bar, né? Vou falar de volley?

– Se você não gosta de cerveja, não gosta de futebol e acha infantil ficar pegando no pé um do outro… Então por que você continua amigo deles?

– Ai Laura… Amigos são amigos…

– Continuo não entendendo…

– Esquece, acho que você nunca vai entender.

– Humpf… Homens…

– …

– …

– Er… Laura?

– Que?

– É sério… Nunca comente nada sobre o “fio-terra”, ok?

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14 Comentários on "Questão de Sobrevivência"

  • Paulo diz

    Excelente! Por que vc demora tanto para escrever, seu picareta?

  • José Ignacio diz

    Lembrança da Laura?

  • Rafael diz

    É, vai dizer que não tem tempo!

  • malena diz

    valeu a pena esperar…..hahaha…MAS VÊ SE Ñ DEMORA 1000 ANOS PRA ESCREVER OUTRA!!! Bj!!

  • Kris diz

    Nice comeback!!! Influência da LAura??? Magina!!! Muito bom…mas fio-terra??? hehehe

  • Ricardo diz

    Muito bem Malena, Paulão! Seu picareta, Maldito! Se você não escrever com mais frequência, vou começar a falar aqui, que alguma parente próxima sua, dirije caminhão sem camisa na Marginal, ou coisa assim!

    Muito boa, Mamute! Vê se não escreve a próxima em setembro de 2006!

  • Ricardo diz

    Ah … e antes q eu me esqueça … finalmente temos um aposto bacana pra você “Sabe o Joe, aquele do fio-terra, então …” Muito bem carinha!

  • Leopoldo diz

    Amigos são mesmo uma merda, viu?

  • malena diz

    uns mais do que outros.

  • José Ignacio diz

    Ruim com eles, muito pior sem eles!

  • Fujii diz

    antes mal acompanhado do que só.heheh

    Cara…muito boa!

  • Descobri o Joe cronista e virei leitor. Ducaraca, JOE! Sinto falta de anedotas de Cuba… abrazo fuerte

  • Akemi diz

    Parabéns pelos seus textos! Em especial o texto do dia 06/07/2004 já que contém tantos sentimentos misturados com fatos reais, simples momentos da vida. Deve ser bom escrever com a alma e não com o Aurélio. Meus sentimentos…

  • aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! finalmente vim aqui ver vc. gosteiiiiiiiiiiiiii. mas, fala sério, dois anos depois acho que já ta na hora de começar a atualizar, né? então vaza logo dessa ilha e vem cuidar dessas bagaças, ok? e me avisa quando chegar, se é que eu já não te disse isso antes. bejo, lindim. ah, ultima coisa: não esquece de explicar na tua biografia completa aqui do site que teu nome verdadeiro é leonardo, pode ser? acho feio vc enganar as pessoas por tanto tempo… hihihihi. saudadiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.

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