O Caso Soninha

“Na semana passada, a capa da Época criou uma certa polêmica. Eu sabia que algo tinha acontecido, mas não sabia exatamente o que. Logo em seguida, a Soninha foi demitida, e aí eu fiquei sem entender nada. Pois bem. Ontem eu assisti ao programa “”Observatório da Imprensa”” na TV Cultura. Um programa muito bom, que discute a mídia, o jornalismo em todos os seus aspectos e vários outros temas ligados à comunicação.

Para minha surpresa, lá estavam ontem Soninha e um representante da TV Cultura debatendo o tema da demissão dela. Esse tema é polêmico por vários motivos, porém, antes gostaria de discutir outro aspecto.

O grande causador da bagunça toda foi a revista Época, ao meu ver. Jornalisticamente, eles fizeram tudo certo. Entrevistaram pessoas que podiam opinar com conhecimento e serenidade sobre a questão, escreveram de forma clara e até construtiva e ainda levantaram questões importantes como a descriminalização e o uso medicinal da droga com visões opostas. Do ponto de vista da reportagem, tudo foi feito de forma coerente e profissional.

Pois bem, na hora de fazer a capa da revista, os jornalistas se traíram, e da pior forma possível. Eles se tornaram publicitários, no sentido mais claro da palavra. Aquela capa não foi criada para gerar polêmica, nem para ser informativa, e ainda por cima não retratou o conteúdo da matéria. A capa da revista, naquele momento, se tornou uma peça publicitária, em todos os aspectos, do texto ao layout.

Espero não ter ofendido os puristas mas, sinceramente, é isso o que eu acho. Outro detalhe importante: a TV Cultura tomou uma decisão muito rápida, muito impensada, e até agora não conseguiu justificar de forma coerente a ação. A percepção que se tem é de que a emissora buscou se proteger. Mas não vamos ser injustos, como bem disse Alberto Dines: a emissora permitiu ser criticada, de forma dura inclusive, dentro de seus próprios estúdios.

Outro aspecto importante: como uma apresentadora e radialista com a experiência da Soninha deixou-se, ingenuamente, enganar pela revista? Afinal, é do conhecimento de todos a famosa “”edição jornalística””. Por isso, é até indicado não falar frases longas com conteúdo de efeito. Mas quem vai ficar se policiando o tempo todo?

Isso me faz pensar no seguinte: até que ponto a imprensa é confiável para suas fontes? E se deixarem de ser, até quando vamos poder confiar (o que já não é muito possível hoje em dia) em nossos meios de comunicação?”

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5 Comentários on "O Caso Soninha"

  • Eu sou suspeito pra falar? Não sei, mas esse assunto gerou bastante discussão. Ainda bem. A Cultura está de certa forma certa e de certa forma errada. A Soninha está de forma certa e de certa forma errada, também. E o mesmo acontece com a Época. A reunião de três erros e acertos simultâneos gerou uma situação muito interessante. E o resultado foi o debate. Legal, Murilo, por não deixar a peteca cair.

  • Ricardo Alter diz

    Temos que saber qual é o poder de uma pessoa chave da imprensa como ponto de influência. É tão diferente assim eu dar uma declaração dessa ou a Soninha? Se o Paulo disser que utiliza charutos para outros fins e o Clinton disser o mesmo, o que mudará o ato em si? A pessoa é mais importante que o fato?

  • Ricardo Alter diz

    Ops!!!! Acho que encontrei o tema para meu

    TCC!!!!! yahoooooo!!! Brigadão Murilo!!!!

  • Renata diz

    Mi,

    Muito legal você ter levantado esse assunto aqui. Agora, não entendi muito bem sua posição perante o fato de a capa ter se tornado, como você bem apontou, uma peça publicitária. Você acha isso errado?

    Bom, eu como uma pretensa-publicitária (e não só, vai: como cidadã, pessoa-pensante, sei lá!)não vejo outra forma de ser. Dentro do jornalismo, não sei o quanto isso é ético – nem deve ser muito. Mas na lógica do mercado, faz todo o sentido.

    (Please! Note que não estou discutindo essa capa em si, mas a questão em geral. Acho que, neste caso específico, a revista passou dos limites, fez a péssima edição jornalística).

    Bom, pra resumir, tudo isso nos leva à velha questão sobre o comprometimento da parte editorial com a parte comercial dos veículos. Até que ponto eles têm mesmo um comprometimento com a verdade e até que ponto eles querem vender exemplares e agradar aos anunciantes????

  • Re, só para responder a sua pergunta. Acho que fazer da capa da revista um anúncio é uma irresponsabilidade imensa. Uma publicação jornalistica, por mais que tenha que agradar anunciantes, precisa ter credibilidade e seriedade. Se você observar com calma, alguns anunciantes estão deixando de veicular em publicações que não respeitam a etica jornalista ou até a ética geral.

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