Palavrões são imutáveis

“A recém volta do colega Leopoldo com sua crônica sobre vovôs modernos me inspirou. A questão da imutabilidade dos palavrões foi algo que eu senti na pele. Não importa em que época ou cultura estejamos, sempre haverá um conjunto de palavrões compartilhado por todos. Palavrões são heranças valiosas de uma geração para outra.

Eu aprendi essa lição quando era bem novo (na verdade, minha mãe aprendeu). Ainda bem que eu nem sabia do que se tratava aquela gritaria toda:

– Oi moça.
– Que criança fofinha!
– Nossa, moça! Você tem as unhas pintadas!
– Tenho sim, quer ver?
– Quero!
– Gostou?
– Olha, eu sei o que cada uma quer dizer.
– É mesmo? E o que é?
– Buceta! Puta que pariu! Cu! Filho da Puta!
– Ai!!!!! Um menino tarado!!!!!!!!

Depois disso, eu olhei para a minha babá. Ela estava meio, quero dizer, completamente, vermelha de vergonha. Ela me pegou no colo e me levou correndo do supermercado para casa. E eu não estava entendendo nada. Quando minha mãe chegou, o papo foi o seguinte:

– Nunca mais levo esse menino no supermercado nem em lugar algum!
– Que foi, Dita? O que aconteceu?
– Ahhh Dra! Foi só tirar os olhos dele que ele pegou na mão de uma mulher e xingou cada uma das unhas com nomes horríveis. Cruz Credo!
– Imagina Dita, ele é tão educado, e sabe que eu não gosto que falem palavrão.

Todos se perguntavam onde eu havia aprendido aquelas coisas. Numa bela tarde de domingo, em Ituverava, estávamos todos no alpendre da casa da minha vó. Aí chegou a tia Saduna, irmã do meu vô, uma velhinha desbocada. De repente, eu pulei na frente dela, apontei para os seus pés e gritei:

– Buceta! Puta que pariu! Cu! Filho da Puta!
– Aiii! Que gracinha, você aprende rápido, hahaha. Amanhã a tia te ensina mais.

Todos começaram a rir compulsivamente. Eu fiquei na mesma. Naquela época, os adultos viviam em outro mundo.

Depois disso, minha mãe lavou meu cérebro com aquele conceito de unha pintada e eu esqueci aquelas palavras tão horríveis (hoje tão úteis), e eu nunca mais dei vexame em público (por causa de palavrão). A tia Saduna, porém, continua ensinando as novas gerações que os palavrões são imutáveis mesmo:

– Ai! Merda de carta! Puta que o pariu, não jogo mais essa….”

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4 Comentários on "Palavrões são imutáveis"

  • Ricardo Alter diz

    Caralho!!! Tesão!!! Fodida!!! Porra, ficou do caralho sua Crô!!!

  • Anninha diz

    Além de tesão e engraçada pra cacete, puta educativa!!! *rs*

    (tentei pegar leve, sou uma mocinha e sabe como é: mocinhas não falam palavrão, só palavrinhas…! Tomara que minha mãe não leia, mesmo assim! *rs*)

  • Querido Filho de Deus:

    O Senhor não gosta quando usamos este tipo de linguagem. É blasfêmia que chega direto nos ouvidos dEle. Você gostaria que na sua caderneta lá no ceu estivessem listados todos os palavrões que disse na vida?

    A solução é se confessar, meu pequeno Murilo. Pode-se perceber que seu coraçãozinho está cheio de raiva e dominado pelo demônio. Tira estas palavras de tua boca, e abre teu coração. Jesus Te Ama.

    PS: Se você não pedir desculpas, te encho de porrada, moleque!

  • Deliciosos diálogos… é impressionante como as pessoas da cidade se impressionam com palavras “tão úteis”. Um abraço aqui do interiorrr com pão de queijo, guaraná mineiro 180ml e paçoquinha – duas – pois ajuda na criação e na procriação!

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