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Um dia na roça - (10-12-2001)

“José acordou com o cantar do galo, como de praxe. Deu bom dia para a esposa e foi se trocar. Colocou uma calça jeans surrada, calça boa para trabalhar, resistente, confortável e barata. Cada vez que vinha da cidade grande, seu irmão lhe trazia uma nova. Vestiu a camisa marrom claro de algodão. Bateu as botinas contra o chão e as calçou.

Foi à mesa e deu bom dia para seus dois filhos, que logo iriam esperar o ônibus para a escola na estrada que passava pelo sítio. Tomou o leite recém tirado da vaca, e comeu um pedaço de bolo de fubá. Olhou pela janela. O sol estava nascendo e com um grito de luz, chamou José para o trabalho.

Ele passou no quartinho das ferramentas, pegou sua enxada e a trouxe acima dos ombros. Foram os dois em direção ao campo que, agoniado, pedia por uma capina bem dada. O sol já era dono do céu quando José dava seus primeiros golpes na terra. Golpes violentos. Para que da violência, venha a vida que sustenta a vida.

José sabe que quando o sol martela sua cabeça com seus raios é hora de comer. Apoia sua enxada no ipê próximo e caminha em direção à casa. Observa o pouco gado pastar com uma paciência impar, como se pastar fosse uma refinada arte. Observa também as galinhas ensinado os pintos a ciscarem na terra escura, que tanta comida esconde.

Senta à mesa e, com água na boca, aguarda o frango assado, que vai dar-lhe a energia de terminar o dia. Come muitas verduras. Afinal é isso que a terra mais oferece a quem dela vive. Ao terminar sua refeição, busca forças no alpendre para continuar.

Retorna ao campo de batalha, que é batalhado todo dia. E nem é preciso dizer que é com certa alegria. Afinal esta é uma batalha cujo resultado não é a morte, e sim a vida. Que brota todos os dias em incansável frenesi.

Agora o sol já não tem tanta força, e deixa que as estrelas ocupem seu lugar no palco superior, o céu. E sem mais enxergar, segue a luz do lampião até o lar. Não come muito na janta, para não sonhar sonhos ruins. E para José, sonho ruim é acordar sem viver mais um dia na roça.”



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Renata - renata.natacci@jwt.com • 20-12-2001 04:40

(Poxa, só eu comento!)

Murilo, que bonitinho! Entendi por que quiseram publicar seu texto no site das vaquinhas…

Ricardo - ricardo@cronistasreunidos.com.br • 28-12-2001 09:41

Mamutão …

Muito bonito o texto, parabéns! Posso dizer que você me surpreendeu pela sensibilidade.

Abraços!

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