O Destino de Madalena

“Me lembro dessa cena com muita clareza. Entrei no ônibus, ele estava quase lotado. Vi poucos lugares vagos. Um deles do lado da mulher mais bonita que eu já havia visto. O sonho de todo homem é viajar de ônibus sentado ao lado de uma mulher bonita, apesar disso raramente, ou mesmo nunca, isso acontecia. Pois bem, ela era tão bonita, mas tão bonita que não tive coragem de sentar ao seu lado. E assim, com o passar do tempo e dos pontos, o ônibus lotou. Pessoas em pé amontoadas. Apenas um lugar estava vago.

Depois de um tempo descobri que aquela moça era Madalena. Herdeira de uma tradicional família de Bragança Paulista. E que por ser tradicional estava a beira da falência. Ela teve o melhor estudo que o dinheiro pode pagar, era lida, ensinada e formada em direito. Se vestia de forma impecável e era motivo de inveja pela maioria das mulheres e de admiração, e por que não, de suspiros, pela maioria dos homens. Mesmo assim, ela estava sempre sozinha.

Encontrei Madalena muitas outras vezes, o mundo que já é pequeno, era menor ainda. Ela freqüentava todos os bailes da cidade. Me lembro claramente de uma ocasião. Era aniversário do prefeito. Sua esposa adorava aparecer na coluna social e por isso a data foi celebrada de forma suntuosa. Já havia me tornado um médico famoso na cidade. Era um dos únicos. Logo que cheguei na festa, cumprimentei o prefeito, Sr. Machado, homem distinto e respeitável. Fui pegar algo para beber.

No meio do caminho, vejo Madalena. Sentada à mesa com os pais. Ela parecia muito a vontade. Mais uma vez deixei que meus instintos me guiassem e mais uma vez eu passei reto. Não tive a coragem e não fui exceção. Alias, fui regra. Ela não dançou com ninguém naquela noite. Fora seu pai.

Ela sorria pouco e não falava muito. As pessoas do fórum da cidade pouco sabiam da sua vida, que de tão monótona nem era assunto para as animadas rodas de amigos na praça de amigas na porta da igreja. Era a única beleza que passava desapercebida.

Anos depois, quando me aposentei em Bragança, estava andando na praça e para minha surpresa avistei Madalena , que já não era uma moça linda e sim uma senhora muito bonita. Não pude deixar de reparar, ela estava sozinha. Parei e refleti. Me perguntei muito sobre aquela situação, mas não consegui resposta. Por que tal beleza, foi fadada a solidão, que tipo de castigo é esse? Não cheguei a conclusão nenhuma. Acho que era o destino de Madalena. “

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1 Comentário on "O Destino de Madalena"

  • Rafael diz

    É verdade. Já reparei que esse tipo de coisa acontece mesmo. Mulheres estonteantes que de tão estonteantes que são, acabam despertando apenas a admiração alheia e terminam na solidão.

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