Um Dia no Hospital

“Tinha machucado feio. Sabia disso por que nunca a tinha visto tão preocupada. Ela ora ligava para o meu pai, ora ligava para outro médico. Comecei a ficar tonto, sentia minhas pernas bambearem um pouco. Gritei:

– Mãe!
– Calma filho, já vamos. Segura esse pano na sua cabeça. Isso, pressiona forte.
– Tá doendo.
– Já vai passar…

Depois disso entramos no carro. É engraçado que quando você é novo, sua capacidade de dispersão é maior. Eu estava segurando um pano, cheio de sangue, contra minha cabeça e só conseguia pensar em brincar com meu carrinho novo de pedalar. Era um último modelo.

Chegamos no hospital. Acho que a partir dali eu sempre odiei hospitais. Eu não me lembro muito. Mas é a única lembrança a quem posso responsabilizar essa fobia. Sentei em um banquinho na recepção, minha mãe mandou que eu continuasse a segurar o pano e que esperasse por ela. Havia uma senhora do meu lado.

– Oi lindinho.
– Oi.
– Tudo bem com você? (se me perguntassem isso hoje em dia…)
– Tudo! Só dói um pouco aqui.
– Ah, não se preocupe. Os doutores vão te tratar muito bem.
– Vamos, filho.

Minha mãe me puxou pelo braço e entramos em um corredor. Só me lembro de ver várias macas pelo corredor, com tudo quanto é tipo de doente em cima delas. Não sei porquê, mas não sentia que era igual a eles. Um engano que alguns cometem e outros insistem em cometer.

Entramos em uma sala com uma maca alta e uma mesa com duas cadeiras. Sentamos um em cada cadeira. Esperamos. A porta se abriu e surgiu uma figura alta, toda vestida de branca, com um olhar superior a qualquer coisa que já havia visto.

– Quer dizer que o garotão fez uma corte na cabeça? Deixa eu ver aqui…
– Aiiiiiii! Dói!!!!
– Não foi nada. Cinco pontos bastam.
– Mãe, o que é ponto?
– O moço vai costurar sua cabeça para fechar o corte.
– Ahhh, vai doer?
– Não.

Uma anestesia, uma agulha e muitos nós depois eu estava “”consertado””. Podia brincar com o meu carrinho amarelo. Melhor do que andar de bicicleta na cozinha, assim ficava livre de mais um dia no hospital.”

Compartilhe!

3 Comentários on "Um Dia no Hospital"

  • Jacaré diz

    Então foi nesse dia que você perdeu os parafusos? Tá explicado.

    :o)

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Esse foi um dos dias. Tem outros. Realmente não tenho muitos parafusos

  • Marina diz

    Foi ai que começou seu trauma? Acho melhor se acostumar com o assunto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *