Viver na Ilegalidade

“Oito horas da noite. Uma neblina espessa cobria a cidade. Não sei dizer se prefiro a cidade assim, tão escura, como se estivesse escondendo suas ruas, casas e pessoas. Mas essa neblina pode ajudar muito. Afinal, hoje é dia. De que? Não posso dizer, não se fala isso por aí. A polícia de Paris anda vigiando de perto as minhas atividades ilegais. Sei que mais cedo ou mais tarde vou ser pego. Mas como todo bom viciado, me arrisco mais uma vez.

Desço até o metrô, olho para os lados. A sensação é aquela de sempre, me sinto observado. Entro no último vagão. É o mais vazio. Não preciso nem explicar a vantagem de estar em um vagão desses. Abro meu livro, estou lendo “”A Caverna”” do Saramago. Um livro difícil e exigente, porém recompensador. Chegando no meu destino saio, discretamente, da estação.

Apesar de alguns duvidarem, a vida fora da lei segue algumas regras, muito rígidas por sinal. Sento no café de sempre. Peço a mesmo coisa, um café e um charuto. Duas horas depois o charuto acaba e algumas xícaras permanecem na minha mesa. Pago e saio. Ritual cumprido.

Viro a esquerdo primeiro beco e encontro outros brasileiros que lá estavam. Eles como eu, também sofrem do mesmo mal. Somos todos irmãos nessa aventura. Conversamos um pouco e garantimos de que ninguém nos segue, prosseguimos.

O local em que entramos agora chama-se “”Le Trou””, uma boate muito famosa na década de 80, que está em plena decadência. Um lugar perfeito para caras como nós. Seguindo a rotina, novamente, tomamos alguns uísques, criamos coragem e partimos para ação.

A passagem que devíamos tomar era muito bem guardada e nossa entrada dependia muito do humor do segurança, que mesmo nos conhecendo, sempre perguntava:

– Quem vem lá?
– De novo isso? Somos nós, temos convite para a sessão especial de hoje.
– Deixe me ver…. podem entrar.

Esse é o pior momento. Atravessamos um corredor escuro de uns 50 metros, descemos alguns lances de escada, e encontramos Pierre.

– Pierre, como vai?
– Vou bem. Sejam bem vindos a sessão de hoje. Ela é especial.

Entramos na sala, estava lotada. Mas nossos lugares eram reservados e bons. Passaram-se 5 minutos e o filme começou. O nome dele era: Independence Day. “

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