Dois milhões

“Eu estava no carro, parado num congestionamento típico de quarta feira. Barulho de caminhões, vendedores de castanha, lavadores de pára-brisa e crianças malabaristas estavam por todos os lados. No rádio a notícia era – a cidade está parada -, desde quando isso é novidade. Por que diabos só se fala em trânsito? Será que não dá para contratar alguém para noticiar quais são as vias que estão sem trânsito? Deve haver alguma via sem transito. Bem, o dia que eu comprar uma rádio eu faço isso.

O celular começou a tocar. Era o Almeidinha, meu corretor. Não de seguros, da bolsa de valores. Era o cara para quem eu ligava e dizia: compre, venda, segura o preço e assim por diante. O que diabos o Almeidinha ia querer as sete horas? A bolsa nem está aberta essa hora. Será que ele fez merda? Será que eu fiz merda? Deve ser alguma merda.

– Oi Almeidinha.
– Seu Antônio, como vai?
– Depende. Por que você me ligou essa hora. Não é coisa boa né?
– Depende.
– Merda. Sabia.
– Pois é seu Antônio, o senhor acompanhou a bolsa hoje?
– Não, eu pago alguém para fazer isso para mim, deixe me pensar, é você! Fale logo Almeidinha, quanto eu perdi?
– Dois.
– Dois?
– Milhões.

Dois milhões, como diabos eu pude perder dois milhões. A Mari vai me matar. Eu prometi que ia comprar aquela cobertura na semana que vêm. Calma, mantenha o foco, tem algo errado aí.

– Almeidinha, você quer fazer a gentileza de me explicar como isso aconteceu? Antes que eu perca minha cabeça.
– A PB01 subiu 5% ontem e a VR01 caiu 3% ontem, e você se lembra da nossa operação surpresa de segunda feira, né?
– Lembro. Agora eu entendi. Não é tão ruim assim Almeidinha, não é mesmo. Muito pelo contrário, foram os dois mais bem investidos da minha vida. Obrigado por ter ligado.
– Até mais seu Antônio.

As vezes você acha que se deu muito mal, até você perceber que Deus te usou para fazer mal para alguém que realmente mereça ser punido. Seja louvado o Senhor. Liguei para a Mari.

– Oi linda.
– Totó, cadê você? A tia Verusca está te esperando para o jantar.
– Estou no transito. Em meia hora estou aí. O seu primo está aí também?
– Sim. Ele está meio mau humorado, alias.
– Eu sei o porquê. Lembra do apartamento que você queria?
– Lógico que lembro, aquele que a gente vai comprar semana que vem, certo?
– Então…
– Totó Junqueira, o que você fez com o nosso dinheiro?
– Eu não fiz nada. Seu primo fez, durante o jantar da Tia Valesca, quando ele pegou o meu celular, ligou para o Almeidinha e disse: Vou te mostrar como se faz um bom investimento.
– Eu não acredito que aquilo deu errado, quanto a gente perdeu?
– Dois
– Dois?
– Milhões.”

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5 Comentários on "Dois milhões"

  • malena diz

    q vingativo…q rancoroso…q….genial!

  • Kris diz

    QUE LINDO!!!

  • Ricardo diz

    Esse é o novo Murilo way of writting! muito Mamute!

  • Van diz

    Pra que tanta maldade no seu coração???

    Brincadeirinha… gostei :) beijoca, van

  • José Ignacio diz

    Dois milhões… de aplausos!

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