Mal Entendido

“Sentaram no primeiro banco que estava vazio na praça. Antes, obviamente, ele limpou o banco. Sentar em cima de folhas não é agradável, a conversa, certamente, não seria também. Haviam se separado há mais de três anos. Ela estava de volta à negócios e ele nunca havia se mudado da cidade natal. A praça era a mesma onde eles tiveram sua primeira briga, eram adolescentes na época.

– Fiquei contente que você me ligou.
– Eu estava de passagem, tinha que te ligar, já faz três anos afinal.
– É muito tempo mesmo. Inacreditável como você não mudou nada.
– Não precisa me bajular, a idade já me é companheira.
– E o que isso quer dizer?
– Estou velha.
– Bobagem. Você ainda está bem gostosa.
– Eu devia ficar ofendida com isso, mas não consigo.
– Eu sei, é o meu sorriso. Irresistível.
– Você continua um palhaço.

Imóveis por alguns segundos, observaram o carrinho de cachorro quente. Provavelmente lembrando das inúmeras vezes, que haviam matado aula para comer e depois namorar na praça. Se entreolharam.

– O que será que deu errado?
– Conosco?
– Não, com o “”Cadeirão””. Era um bar tão bom!
– Achei que você fosse querer conversar sobre a gente.
– Não há mais o que conversar. Você foi embora, em busca dos seus sonhos, eu não fazia parte deles. Eu fiquei e fui em busca dos meus.
– Você sabe que não foi bem assim que aconteceu. Era uma oportunidade de ouro.
– Eu sei muito bem o que aconteceu, e realmente não precisamos falar sobre isso.

Ela estava nervosa, mas não demonstrava, já ele, não conseguia disfarçar o nervosismo. Ele sempre coçava o joelho quando estava nervoso. Ela pegou na sua mão.

– Não precisa ficar assim. Podemos apenas dar uma volta pela cidade.
– Andando?
– É melhor. Você pode andar comigo até a casa da Patrícia, ela viajou e me deixou ficar lá até quinta-feira.
– Tudo bem. Acho que uma caminhada vai fazer bem.

Andaram por trinta minutos, relembrando cada passagem de suas vidas naquelas ruas praticamente intocadas. Os passeios de bicicleta, as brincadeiras de rua, a turma da rua de cima e a turma da rua de baixo, os cachorros bravos, os velhos mau humorados e até a velha fonte da Dona Iracema.

Quando chegaram na porta da casa da Patrícia, ele pegou em suas duas mãos e se aproximou.

– Achei que nunca mais fosse beijar essa boca.
– Mas quem disse que você vai?
– Eu achei que isso tudo era…
– O que?
– Bem, você me ligou, me convidou para ir na praça.
– Era o lugar mais conveniente.
– E a conversa sobre nós dois?
– Olha, não queria estender essa conversa, mas você entendeu errado.”

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3 Comentários on "Mal Entendido"

  • Gabi diz

    Vc é mal – acabando com os finais felizes de histórias românticas, rs. Mas fica MUITO melhor assim. Adorei o texto.

  • José Ignacio diz

    Mandou bem, rapaz. Não está mais apressadinho!

  • José Ignacio diz

    O primeiro diálogo, aliás, está excelente!

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