Mudança

“Ontem eu estava voltando de Ituverava e fui parado por um policial rodoviário. Perplexo parei o carro. Ele me abordou:

– Senhor, documentos por favor.
– Pois não seu guarda. Aqui estão.
– O senhor sabia que o seu farol esquerdo estava queimado?
– Não seu guarda.
– Venha ver aqui.
– Sim. Está realmente queimado. O que fazemos?
– O senhor pode voltar para o carro e ver se não é mau contato.
– Ah. Acho que não. Pode fazer a multa.
– O senhor tem certeza, terei que apreender sua carteira.
– Sem problema. Manda bala.

Calhou que o guarda nem sabia o que fazer com meu farol queimado, e comecei a questionar se realmente as pessoas eram multadas na estrada ou se tudo se resolvia no “”mau contato””. Depois andei pesando em todas as possibilidades de saídas ilegais que já haviam aparecido na minha frente, nos meus poucos e não representativos anos de vida.

Como um qualquer como eu poderia ter acesso a tanta sacanagem? A sacanagem deveria estar restrita a poucas pessoas. No resto do mundo funciona assim, pelo menos. Aqui pelo visto a coisa degringolou de vez, mas não podemos perder as esperanças. Eu vou consertar essa bagunça.

A primeira coisa a fazer era exigir um serviço público decente. Fui até a prefeitura verificar a situação do alvará de funcionamento do estacionamento que acabara de comprar. A moça foi muito atenciosa:

– Não sei informa-lo.
– Como não. Ninguém viu o processo?
– Não.
– Quero falar com o seu chefe.
– Ele é o subprefeito, só com audiência marcada.
– Quero falar com o responsável.
– Sou eu mesma.
– E como você pode estar tão desinformada?
– Tudo é uma questão de conversar.

Mas que merda. Como eu iria consertar isso. O jeito seria marcar uma maldita audiência com o presidente, mas até eu conseguir isso já estarei muito velho e mal-humorado.

Então está decidido. Vou embora dessa merda! Fiquem com a Amazônia, a alegria, a hospitalidade, os bois e até com a droga da feijoada. Eu vou para um país organizado e honesto. Olhei no mapa. Minha mãe mandou eu escolher esse daqui. Letônia. Acho que não, de novo. Vou jogar uma pedrinha no mapa. Onde ela cair é o meu destino. Portugal. Nem a pau! Vai Espanha então. Barcelona tem balada, ar puro, uma catedral inacabada. É lá mesmo.

Chegando no aeroporto fui falar com a autoridade de imigração.

– Bom dia oficial.
– Documentos por favor.
– Aqui estão.
– Por que senhor veio a Espanha.
– Vou morar aqui.
– O senhor tem visto para isso?
– Precisa?
– Lógico, ou visto de trabalho, ou visto de permanência ou até passaporte espanhol.
– Mesmo. Será que não é um mau contato no seu computador?”

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