Fumaça

“Ele começara a fumar charutos quando ainda na intempérie da juventude. Aprendera com seu pai, advogado muito respeitado em Ituverava, que se aposentou em Ribeirão Preto. Queria uma pouco mais de agito, ele costumava dizer. Aprendera também com o pai, a arte de ter paciência, até porque não se pode fumar um charuto com pressa, ainda mais cubano, de capa escura, seu favorito. Teve a sorte de viver em um ambiente no qual o tabaco era respeitado, longe de qualquer demagogia pseudo-sanitária.

Criara hábitos próprios, rotinas metódicas, em tudo, principalmente no que dizia respeito aos charutos e as bebidas. Eram suas atividades favoritas, independentemente do momento ou da época. Não tem hora certa para isso. Os amigos o conheciam pelos ditos e não ditos:

– Nunca peça um charuto, espere que eu ofereça. Se eu não oferecer, bem, faça por merecer da próxima vez.
– Não misture nenhuma bebida, nem dissolva em gelo. Agüente como um homem. Seja um homem. Pare com essa frescura.

Ninguém nunca soube o que fazia uma pessoa ser merecedora de um charuto ou não, mas as vezes ele guardava charutos bem velhos e estragados para se divertir as custas dos incautos:

– O amigo tem um desses para mim?
– Desse não, tenho um melhor, faça a gentileza.
– Muito obrigado, o cheiro está ótimo.

Não há nada mais divertido do que ver um incauto tentando entender por que diabos ele não consegue fumar um charuto que parecia tão bom na mão de outrem.

A primeira vez que eu o vi abrir uma caixa de charutos e distribuí-los foi no pré-casamento da filha, que ele fez questão de chamar apenas os amigos e familiares mais íntimos para comer uma boa comida, tomar uma boa bebida e degustar um bom charuto.

– Amanhã teremos tudo que é bom. Hoje só aceito o melhor.

Aprendera com o mesmo pai que o bom serve para muitos, mas o excelente apenas para poucos. Não precisamos de excelentes governantes, apenas bons bastam, dizia o velho no fim da vida. Ele dizia outras coisas também. Mas nada que valha repetir aqui.

Eu lembro bem da última vez que o vi, terminamos de fumar nosso charuto de domingo, ele estava satisfeito com o resultado do jogo, me serviu mais uma dose de conhaque. Falava pelos cotovelos sobre o apartamento da filha, a viagem de lua de mel e o quanto aguardava para ter netos.

Deixou o charuto encostado no cinzeiro e a fumaça foi minguando aos poucos. Junto com ela, ele aos poucos também. Fará muita falta.”

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4 Comentários on "Fumaça"

  • Kris diz

    Mata o velho.

  • malena diz

    grand finale!

  • diz

    Murilo, emocionou.

  • Mamute … muito bom! Muito bem escrita, mesmo! Parabéns! Com tiradas elegantes, sem escrachar e tal … Emocionante!

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