Um Dia Qualquer

“Numa calma manhã de quinta feira, se viu despido de vontade. Sentado a sua mesa no trabalho, não queria fazer absolutamente nada, aliás, não era um dos dias mais cheios, mas sempre há trabalho, nem sempre pessoas com disposição para fazê-lo.

Começou a navegar na internet, leu algumas notícias, mandou alguns e-mails, ligou até para a sua mãe, que assustada perguntou: meu filho, está tudo bem? Sim mãe, tudo ótimo, só liguei para falar oi. Nunca ligava, não é a toa que causou demasiada preocupação.

Revisou a agenda inteira do celular, acrescentou nomes, apagou nomes, mudou números, copiou os dados para o computador e depois editou tudo de novo. Fez isso com a lista de e-mails do trabalho, com a lista pessoal e depois ainda com a velha agenda impressa que ficava escondida na pasta.

Tudo isso feito e passado apenas 1 hora, faltavam oito, contando com o almoço, que já decidira pedir e comer na sua mesa, pois a preguiça de sair de lá era muita. Comeu um sanduíche de pão francês, recheado com pasta de azeitona escura, salame e queijo provolone, para acompanhar, uma coca cola.

Antes de almoçar, leu o relatório financeiro da empresa, depois o relatório de desenvolvimento sustentável e depois leu a mesma coisa de todos os concorrentes. Não lembra de nada muito interessante, apenas de uma frase no relatório financeiro: Uma empresa do bem, feita por gente do bem, para atender pessoas do bem.

Uma frase típica, mas que pouco demonstrava a realidade, pensou. Quem escreveu isso não conhece o Mauro da contabilidade, nem o Pedro de logística, muito menos o João do comercial. Estão todos louco, isso sim. Depois descobriu que o responsável pelo relatório era o diretor de marketing. Estava tudo perdido mesmo.

No início da tarde recebeu um telefonema, era a matriz na Espanha, precisa de uns números: Quais números? Os que você tiver aí, só me passa rápido. E ele passou, tinha um relatório da semana passada na mesa…deve dar, refletiu.

Depois olhou na agenda e viu todos os compromissos que pediu para a secretária desmarcar…tudo por causa da sua preguiça. Sentiu-se culpado por um momento, mas só, depois passou e ele foi tirar o pó da estante. Estava sujo, sempre reclamava do pessoal da limpeza: bando de preguiçosos, dizia.

Gostava de cuidar dos livros, muitos havia ganho de clientes, outros de parentes, mas os que mais gostava vinham da sua sobrinha Flazinha, que adorava ler e sempre que terminava um livro novo, dava para o tio colocar no que ela mesma gostava de chamar de: “”estantesona do titio””.

Depois limpou sua mesa, sua cadeira. Pediu à secretária que mandassem trazer um aspirador, mas ela o ignorou. Aproveitou e lembrou que o ultimo e único compromisso que ele deixara na agenda era em 10 minutos. Ele foi ao banheiro, arrumou as roupas, ajeitou a gravata, escovou os dentes e voltou a sua sala.

Logo depois a secretária anunciou a visita.

– Boa tarde Sr Martins.
– Boa tarde Vera, sempre um prazer recebê-la.
– Pena que pela última vez.
– Pois é.
– Mas me conte, como foi ser presidente da Vrastraforg por 10 anos?”

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2 Comentários on "Um Dia Qualquer"

  • Anônimo diz

    Muito espirituoso esse menino…….gostei do texto…..

  • Ze diz

    Um toque de melancolia… Tirando a parte hilariante sobre as pessoas de bem!

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