A Vida é uma Novela

“Fim de tarde em São Paulo, chuva torrencial, mais de cento e cinqüenta quilômetros de congestionamento. Marcio e Larissa viam televisão em seu recém mobiliado apartamento. Casados há 2 meses, experimentavam a tão fantástica vida a dois, compartilhando seus momentos de alegria juntos ao assistir a novela das seis: Minha Grande Paixão do renomado autor Cláudio Pacheco.

– Meu amor, essa Maria Clementina é muito má.
– Quem meu docinho?
– A Maria Clementina. Se você parasse de ler essa revista maldita de carros um minuto, não precisava fazer essas perguntas idiotas.
– Calma docinho, eu me distraí, realmente ela é muito má mesmo, onde já se viu dar para o filho bastardo para irritar o ex-marido que está pegando a filha dela. Um absurdo.
– Cínico.
– Não meu docinho, é sério.
– A gente tinha um acordo, você lembra?
– Lógico que lembro, estou cumprindo a minha parte.
– O combinado era que veríamos todas as novelas juntos, e que você prestaria atenção e levaria a sério para termos assunto.
– Mas meu amor, eu estou assistindo, mesmo enquanto eu leio eu consigo prestar atenção nos diálogos.
– Eu não agüento tanta mentira, vou chorar.
– Meu docinho, não seja dramática..
– É a única coisa que temos em comum e você não respeita.
– Mas eu odeio novela, você sabe.
– Então porque fez o acordo comigo.
– Sexo gratuito pelo resto da vida.
– ….
– Mentira meu docinho, eu fiz porque eu te amo e porque era muito importante, mas convenhamos, é mala assistir três novelas, ler todas as revistas de fofoca e ficar comentando depois com as suas amigas.
– Mala é ter um marido mentiroso. Aposto que já tem uma amante.
– Que é isso? Ficou louca?
– E aposto que é uma loira.
– Você deve estar usando drogas.
– E ontem quando você me disse que tinha reunião até tarde, você não ficou no trabalho. Levou essa vagabunda para o motel. Confesse.
– Estou perplexo demais para falar.
– Pois é isso mesmo, quem cala conscente. Minha mãe tinha razão, esse casamento foi um erro.
– Docinho, você está indo longe demais.
– Vou fazer minhas malas.
– Docinho me escute, eu confesso.
– Ahá. Pego no flagra.
– Eu não tenho amante, eu toda vez que atraso, vou para o bar do Zé ver os jogos do campeonato, esse negócio de novela está me matando.
– A traição é pior do que eu pude imaginar. Adeus puto.
– Calma Docinho, volte, eu te amo.
– Cala-te homem, mantenha a dignidade.
– Não se vá.
– Adeus.
– Volte para ver a novela das oito pelo menos.”

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1 Comentário on "A Vida é uma Novela"

  • diz

    Elas acham que é fácil ver novela? Imagine se algum Cronista exigisse da respectiva que lesse todas as crônicas, inclusive o arquivo inteiro, e depois comentasse, com fundamentação literária e referências bibliográficas!

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