A Beata de Ituverava

É de conhecimento público que Ituverava é uma cidade cujos cidadãos são inquestionáveis devotos. Tanto do catolicismo como de outras religiões, como o Budismo, o Candomblé e até alguma tradições indígenas. Mas houve um tempo que a cidade não era assim. Era tomada pela corrupção, pela violência, pelo medo e pela Blasfêmia. Mas tudo isso acabou depois da passagem dela. Ela chegou no dia 24 de maio de 1976.

Ninguém sabia o seu nome ao certo. Uns diziam Maria, outros diziam Josefina, outros até diziam que era Daniela. A história de sua chegada também é confusa, alguns dizem que ela veio de carro, outros dizem que ela chegou no ônibus das 10, e até fantasiavam que ela simplesmente apareceu do nada, se materializou naquele fim de mundo como num filme desses de Hollywood.

Ela andava pelas ruas da cidade nas terças feiras. O dia todo pregando a palavra do Senhor, tentando iluminar aqueles que há tanto tempo estavam mergulhados nas trevas. Conversava com bêbados, prostitutas, cafetões, traficantes, ladrões, estupradores e todo tipo de gente que circulava nas ruas da cidade.

Sua voz era muito calma, quase hipnótica, e ao longo dos meses que se passaram, os resultados da sua peregrinação já podiam ser percebidos por todos. A violência e o crime haviam diminuído, o comércio de drogas virou coisa de banca da esquina e até o Coronel Agripino parou de atirar em pessoas feias que passavam perto do portão da casa dele. Ele costumava dizer:

– Eu vou melhorar a aparência das pessoas dessa cidade mesmo que seja a bala.

Em menos de um ano a misteriosa mulher, que ficou conhecida como a Beata de Ituverava já era uma celebridade na cidade. Jantava com o prefeito, o vice-prefeito, os vereadores, os promotores, os juízes, as personalidades e até com o dono do armazém local.

Ao mesmo tempo que a Beata agradava aos altos círculos da sociedade, suas ações representavam um grande prejuízo ao crime organizado da cidade e eles estavam decididos a impedir a santa de terminar sua cruzada. O plano era muito simples, contrataram uma prostituta, colocaram-lhe uma bata de freira e no dia da festa internacional do peão de boiadeiro de Ituverava, enquanto a freira original dormia seu sono divino a sua sósia fez questão de mostrar para todos que havia entrado com um homem na tenda da Comarca da Igreja. O homem em questão era o Josenildo, bêbado tradicional da cidade, uma das maiores lutas da pobre beata.

No dia seguinte a notícia se espalhou rapidamente, todos comentavam, inclusive o Josenildo gritava na praça central da cidade:

– A Freira é minha namorada, isso mesmo, minha namorada, a freira, namorada, “soluço”.

Uma multidão foi até o convento e começou a gritar pela Santa Beata, pedindo explicações, chorando, rezando pela pobre alma daquela mulher corrompida. De repente a janela do segundo andar se abre e a Freira vem até a janela. Ela já havia sido informada do que estava acontecendo, era uma mulher muito precavida. Preparou um discurso que até hoje é lembrado saudosamente por aquele povão todo. Ele começou assim:

– Meu hímen é a minha vida. A Deus ele pertence. E quem possa duvidar disso, que vá para inferno.

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4 Comentários on "A Beata de Ituverava"

  • diz

    Murilo, preciso conhecer Ituverava, urgente!

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Opa, é só combinar.

  • Dedeia diz

    de tão religiosa, nem parece sua essa crônica… te amo. beijos.

  • harumi ishihara diz

    Quando a criatividade voltar, avise os amigos.Estou cansada de entrar nos cronistas e não ver nada novo do Murilo

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