Vida Própria

Carlinha morava em Pirapora da Serra, cidade satélite da grande Ituverava. Isso nos idos dos anos 80, hoje a coisa já outra, mas não vem ao caso. Ela nasceu no dia 24 de janeiro de 1967. O trabalho de parto foi rápido, do início das contrações ao nascimento em si passaram-se apenas 3 horas.

– É uma criança perfeitamente normal e saudável, anunciava o Dr. Roberto, único médico da cidade, dermatologista de formação.

Pois Carlinha foi a criança mais normal e saudável que já havia nascido por aquelas bandas, que não eram muito povoadas, mas isso também não vem ao caso. Brincava na rua com os garotos e garotas da sua idade, no contexto inocente das cidades de interior. De uma brincadeira para outra, sempre gostava de sentar ao lado da mangueira, arvore frutífera muito comum na região.

Entre uma sentada e outra, um garoto que sempre a olhara com um olhar diferente lhe fazia companhia na frondosa sombra que o enorme vegetal projetava ao lado da chácara do Sr. Tibério. O nome do garoto era Chiquinho. Carlinha tinha certeza que eles se casariam um dia, bem debaixo daquela árvore, na primavera, para evitar que mangas maduras caírem nas cabeças da pessoas, coisa que não vem ao caso.

Pois o tempo passa, o tempo voa e a Carlinha que tudo tinha para se dar bem, trombou com um problema. Um problema de peito. Na puberdade ela foi diagnosticada com uma doença rara, na verdade, até onde o Dr. Roberto sabia, era o único caso já visto no mundo. A turma dela costumava dizer que os peitos dela tinham vida própria.

O que Carlinha tinha era impossível de ser disfarçado. Toda vez que ela via um homem que a deixava exaltada, digamos, além de ficar com os mamilos endurecidos, seus seios aumentavam de tamanho, e muito. O matemático da cidade calculava algo em torno de 20%. Os exagerados falavam em 30%. A má notícia era que todo mundo sabia e comentava, mas a boa notícia é que isso só acontecia quando ela via o Chiquinho e os galãs da TV.

Os pombinhos então se casaram, construíram uma casa em Ituverava para viver o sonho de morar na cidade grande e tiveram 3 lindos filhos, todos comedores de remela, mas isso não vem ao caso. Anos se passaram, como os seios da Carlinha nunca mais reagiram a ninguém e perto do Chiquinho eles sempre entravam no estado alterado, esse detalhe fisiológico ficou esquecido por muito tempo.

Até uma festa da alta sociedade Ituveravense. Em 25 de maio de 2000. Carlinha e Chiquinho, que circulavam bem por esses meandros, afinal tinham empregos importantes na prefeitura, coisa que realmente não vem ao caso. Mas voltando a história, nessa festa os dois foram apresentados a um casal recém chegado da capital, Ribeirão Preto. Godofredo e Gertrudes eram muito finos e elegantes e pretendiam abrir uma loja de produtos agrícolas na cidade.

Assim que Carlinha educadamente apertou a mão de Godofredo, seus seios inflaram mais um pouco. Sorte dela que seu marido estava distraído e não reparou, mas se fala até hoje que assim que viraram as costas, Gertrudes sussurrou para o marido.

– Eu não sei que silicone é esse que a caipira está usando, mas eu quero um igual.

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2 Comentários on "Vida Própria"

  • Genial, meu caro! Genial e divertido master ever!

  • Dedeia diz

    Muito bom!!! Adorei!!! Essa merece ser encaminhada. Te amo. beijos

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