Vida Florida

Essa é a história de Maricotinha, uma rapariga toda cheia de sardas, que usava saia rodada e maria-chiquinha no cabelo. Nascida em Ituverava e moradora atual de Juruspindanhama ela adora plantar e colher flores. Quando nova, seu pai, o coronel Marco Antunes, sim senhor, lhe deu um pequeno sítio, do tamanho de umas dez chácaras e trinta vezes menor do que a fazenda da família. Um bom pedaço de terra, diríamos.

Maricotinha visitava o sítio todos os dias, sentava no gramado ao lado da cerca onde ficava a vaca Malhada e tomava seu leitinho com chocolate em pó preparado pela Genoveva, a governanta, como o coronel se referia a ela.

Numa data que marcou sua vida, vinte e três de junho de 1995, quando tinha 5 anos, Maricotinha viu algumas margaridas amarelas ao largo do córrego do sítio e instantaneamente as adotou como filhas. Largara as bonecas e outros brinquedos do dia-a-dia e passou a estudar tudo sobre margaridas, para assim cuidar melhor das sua prole.

Com o passar dos anos, ela desenvolveu uma série de habilidades e conhecimentos para ter o que o coronel se referia como o “Floral mais bonito do mundo sô!”. Ele tinha razão, eram quase cem mil metros quadrados, ou de dez chácaras ou trinta avos de uma fazenda.

Maricotinha não vendia nem arrancava suas flores. Elas tem que ir pela vontade de Deus, costumava repetir o tempo todo. Nem mesmo após alguns arranca-rabos com seu pai ela arredou o pé.

– Minha filha, você precisa fazer uns tentos com essa propriedade.
– Não, eu não mato as minhas frôs!
– É flores, que se fala!
– É dinheiro que se fala!
– Mas filha, não podemos desperdiçar terra assim!
– Podemos sim e além do mais não é desperdício, é meu hobit!
– O que?
– Hobit! Coisa de gente fina, não de matuto.
– Ainda te dou uns tapa.
– Pois saiba que num mulher não se bate nem como frô. Entendeu?

O Coronel gostava muito da filha, então deixou que o tal de “hobit” que ele não entendia muito bem o que era continuar sem gerar um maldito tento.

Maricotinha começou a inscrever suas margaridas em concurso de flor. Até que depois de um ano foi chamada para o grande. “Festival Floral de Ituverava”. Ela não se continha de alegria:

– Ai, de novo a cidade grande! Que saudades. E saltitava no meio das flores, cuidadosamente, para não pisar em nenhuma, lógico.

Os preparativos foram feitos com todo cuidado, eram vasos e mais vasos para transportar de forma segura e ergométrica, como ela mesmo falava: “Planta minha não morre e nem fica com tendinite”. Depois de dez minutos de viagem pela estradinha de terra, chegaram a capital do condado do distrito.

Descarregou tudo e foi ver os outros participantes, enquanto o Emenegildo e a Genoveva cuidavam de toda arrumação da barraca do Sítio Belas Margaridas. Passou pela barraca da chácara Santo Antônio que criava begônias, pela barraca da chácara Maria Cecília que criava rosas e de repente se deparou com um barraca desconhecida, da fazenda Von Dir Kaptz, que plantava tulipas.

Ela já havia visto tulipas antes, várias vezes em fotos de livros e revistas, mas nunca ao vivo. Perguntou ao Von Dir Kaptz mais próximo:

– Como elas sobrevivem nesse calorão?
– Ah, são uma espécie hibrida, eu mesmo criei, gostaria de comprar umas sementes?
– Lógico.
– Quanto
– Tudo!

Pediu licença e ligou para o Coronel:

– Papai, tudo bom?
– Papai, faz mais de ano que você não me chama assim.
– Pois é.
– Você quer alguma coisa né?
– É papai.
– O que?
– Manda o Irtilio passar o trator no sítio, que eu cansei dessa coisa de margaridas.
– Quem bom minha filha, vai criar gado finalmente?
– Não papai, vou plantar tulipas hibridas.
– Para vender?
– Lógico que não papai, você sabe que eu morro de dó de matar as minhas frôs.

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4 Comentários on "Vida Florida"

  • Kris diz

    E quantos Ranchos são um Sítio?

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Rancho não eram um sítio com brejo?

  • Rafael diz

    Puxa Vida! Mas que Puxa!!!! vc andou mudado depois do último texto, né? Que coisa….ah! by the way……era sítio ou fazenda que a Maricotinha tinha inha inha?

  • diz

    Brejo ou açude?

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