Natal em Pedregulho

Ninguém sabe, nem eu sabia até recentemente, mas minha família de verdade não é de Ituverava, e sim de Pedregulho. Esse ano passaremos o Natal com a família de lá, não com a de cá. É um pouco confuso eu sei, mudar de família de uma hora para a outra, mas tudo bem, família é tudo a mesma coisa, tudo igual, só muda de endereço, não é?

No entanto, endereços diferentes a parte, o martírio é o mesmo. Não bastasse ter dado Feliz Natal por trinta anos para pessoas que nem da minha família são, agora vou ter que dar Feliz Natal para pessoas que não conheço. Não sei o que é pior.

Nesse clima de alegria, expectativa, e novidades, tive uma idéia genial. Seqüestrar o cachorro da avó nova, é lógico, o famoso Orestes, na véspera do Natal. Isso daria uma nova conotação para a ocasião. Mudaria o foco das atenções.

Num primeiro momento isso seria o assunto para a noite toda, ninguém ia falar outra coisa. Ao invés de Feliz Natal, as pessoas a meia noite diriam:

– Espero que o Orestes seja encontrado. Espero mesmo.

Já é uma melhora significativa. Com o passar das horas, todo mundo chegaria à conclusão de que Pedregulho é uma cidade muito pacata. Que a culpa por esse crime hediondo só poderia ser dos recém chegados. Enviados do capeta, eles dirão. A turma dos panos quentes dirá que não é nada disso, que somos apenas pés frios, mas pessoas honestas e limpinhas.

Nós em resposta diremos que foi tudo armado. Que não éramos bem vindos desde o início. Ameaçaremos voltar para a família antiga, mesmo não sendo sangue do nosso sangue. Diremos que eles sim eram boas pessoas, que não nos acusavam, pelo menos não durante o Natal ou aniversários em geral.

Em menos de quarenta e oito horas o Natal nos moldes tradicionais estaria arruinado. O que era para ser um novo encontro familiar teria se tornado uma guerra de nervos. Haveria tios bêbados e tias nervosas por todos os lados. Minha avó ainda ia achar tudo bonitinho, mas no fundo sentirá vontade de não ver nenhum de nós até o Reveillon.

Desejo que pode se resolver com facilidade, é só mandar uma carta pedindo resgate do cachorro no dia trinta e um bem no meio da tarde. Na carta o valor do resgate deve ser o mesmo que aquele seu tio mala pediu emprestado para todo mundo logo que chegou de viagem. Ao invés de desejar Feliz Ano Novo vovó gritará olhando para o céu:

– Por quê? Por que ele fez isso? Maldito seja. Eu quero o Orestes de volta!

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