Jornal de Domingo

Toda vez que vejo um exemplar do “Estadão”, penso na devoção que meu pai sempre teve pelo jornal de papel. Lembro dele contando que, quando criança, só podia tocá-lo depois que todos os adultos da casa o tivessem lido. Meu bisavô, o patriarca, era o primeiro. Tinha a mania de começar o jornal de trás pra frente, marcando com um lápis as notícias lidas para não se perder.  Na sequência, meu tio-avô podia lê-lo, seguido do meu avô,  e só depois as mulheres e as crianças. Aquela hierarquia bem típica das famílias italianas.

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Pour Aline

(ou votos de casamento)

[para os convidados]
Eu lembro perfeitamente as 1ª s palavras que a gente trocou. Eu tinha chegado atrasado a um jantar e a anfitriã resolveu fazer as honras e me apresentar para todo mundo. A Aline, uma das convidadas, querendo ser gentil, disse “eu lembro de você”; eu querendo ser espirituoso, respondi “gostaria de poder dizer o mesmo!” . Se a gente está aqui agora, não é por causa desse meu jeitinho com as palavras.

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Calligando o Gikovato

Na infância, eu (um filho temporão de um casal inseparável) pensava que relacionamento entre duas pessoas era sinônimo de casamento. Simples assim. Algo tão distante quanto o gol do outro lado da quadra oficial de futsal do colégio.

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Dez Anos.

Se me perguntassem, dez anos atrás, onde eu estaria hoje, sem dúvida alguma eu teria errado. Com 22 anos, minha percepção de mundo era bem distinta da que tenho hoje, que sem dúvida é bem distinta da que terei daqui a dez anos. Amadurecimento é isso aí. Eu acho.

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Mulheres com gatos.

– Não, você não entendeu. Não tenho medo de gatos.

– Então o que?

– Tenho medo de mulheres com gatos.

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O mais recente romântico.

“Me dá um beeeeijo, eeeeentão. 
Aperta a miiiiinha mão. To-li-ce é vi-ver a vi-da
a-ssim, sem aventura…”. Olha só o que você fez comigo, estou até cantando Lulu Santos. Não tenho mais idade pra essas coisas. Na realidade, nunca fui dessas coisas. Mas você, você é diferente.

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A gente vai se falando.

– Não agüento mais. Vou responder.

– Calma. Muito rápido.

– E daí?

– E daí que se responder agora, vai parecer que está desesperado.

– Eu estou desesperado.

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Coxinha da Ofner

–    Fernanda, senta aqui. Precisamos conversar.
–    Que foi, Môr.
–    É sério … não vai ser uma conversa fácil.
–    Já sei! Foi a diarista que limpou o iPad com Veja de novo pra tirar as marcas de dedo e você não agüenta o cheiro, né?
–    Droga! De novo, é?!
–    Iche … você não tinha visto ainda?
–    Nopes… Mas ok … o que eu preciso falar é ainda mais sério.
–    Mais que o iPad!? Deve ser o risco no bumbum da Tucson então…
–    O QUÊ?!!?
–    Ai …
–    Poxa Fernanda! Justo a Tucson!
–    Desculpa, Môr! Foi no dia do rodízio, eu tava com sono e nem vi a moto lá atrás …
–    A DUCATI !?!?
–    … (engole seco)
–    Bom, Fê …
–    Descul – (interrompendo)
–    O que eu vou te falar agora, vai fazer tudo isso parecer coisa de criança.
–    Sério?!
–    É.
–    Mas o q … (mais uma vez)
–    Eu estou mudando pra Rússia.
–    Jura?!
–    Juro.
–    Oba!!! Vamos morar na Europa!!
–    Nã-não … EU estou indo pra Rússia.
–    Como assim, amor?
–    Estou apaixonado por uma outra mulher …
–    (silêncio)
–    Que eu nunca vi de verdade.
–    (mais silêncio)
–    Que eu não sei se vou ver de verdade …
–   (o Nada)
–    E que se eu vier a conhecer um dia, e tiver algo, provavelmente vai acabar com a minha vida.
–    (Stephen Hawking desistindo da ciência e virando pastor evangélico)
–    O nome dela é Anna.
–    Hmmm …
–    Ela foi presa nos Estados Unidos e foi deportada pra Rússia.
–    Dooois …
–    E eu amo ela.
–    (O Big Bang) COMO ASSIM!!?!?
–    Você nunca vai entender, Môr …
–    Num me chama de Môr!!
–    Ta bom, Môr …
–    (Dois Big Bangs) Como você tem coragem de me falar isso!?
–    Mas é a mais pura verdade, Fê…
–    Como um homem pode falar um absurdo desses?
–    A pergunta é : Como um homem pode NÃO querer um absurdo desses!?
–    Mas então você concorda que é um absurdo, seu cretino?
–    Claro que sim! Ela é uma espiã russa. Uma máquina de matar. Uma agente que faria o James Bond parecer o Jerry Lewis …
–    Então como você me fala que está apaixonado por ela?
–    Justamente por isso!
–    Mas ela nem vai saber quem você é …
–    Tudo bem …
–    E que segredo ela vai tentar descobrir de você? A senha do seu iPad?? É 1289! Até eu, que não tive treinamento pára-militar, já sei, Ronaldo!
–    Poxa, Fêr … você descobriu, é?
–    SIM! E me fala! O que vai acontecer ?
–    Eu vou pra Rússia.
–    Como?!?!
–    Amanhã.
–    Quando?
–    De avião …
–    Onde?!?
–    Eu já vendi tudo que era nosso …
–    O quê?!?
–    EU QUERO QUE ELA DESTRUA A MINHA VIDA!!
–    (silêncio)
–    (silêncio)
–    Ronaldo …
–    Oi Fernanda.
–    Isso é pegadinha, né?
–    Não.
–    É aquela russa que saiu em tudo que é lugar?
–    É …
–    A ruiva?
–    Isso …
–    Sei …
–    Até já decorei a música que fizeram pra ela. O refrão diz (cantando em russo) “Руки прочь от наших Анна”.
–    Que bonitinho …
–    É ! Significa : Tirem as mãos da nossa Anna!!!!
–    Palhaço!
–    Desculpa.
–    Claro que não.
–    Eu entendo.
–    E não tem mais volta …
–    Não, Fêr … Eu gosto mais dela, do que a coxinha da Ofner…
–    (soluço)
–    (suspiro)
–    A coxinha da Ofner?!?
–    (concordando com a cabeça, em sinal de respeito à gravidade da situação)
–    Então eu desisto… Se fosse mais que a empadinha de palmito eu até tentava mudar essa palhaçada …
–    Mas não é, Fêr. É mais que a coxinha mesmo …
–    Eu entendi. Não precisa repetir que é crueldade.
–    Desculpa.
–    Tá.
–    Tem um envelope na cama, com um cheque, com a sua metade de tudo que é nosso. Você só vai ter que descontar o conserto do risco na Tucson, porquê o Vavá não sabia disso quando me pagou o preço de tabela cheio.
–    Ele pagou tabela mesmo?
–    Acredita?
–    Poxa …
–    Você tá bem?
–    Não. Nunca mais entro numa Ofner.
–    Eu entendo.
–    E pode ficar com iPad. Agora vou pra minha última aula de russo, se você não se importar.
–    Ok.
–    (ele lentamente ele sai da sala)
–    (ela baixinho) Как утка. *

* “Que nem um patinho.” em russo.

De bom tom.

– Você é um cara de pau!

– Sem dúvida. Mas quem está falando?

– Você é muito cafajeste mesmo. Tem a pachorra de me perguntar quem eu sou.

– Ok, olá pessoa estranha com voz esganiçada…

– Larga de ser grosso. Eu sei que você anotou meu telefone.

– E?

– E sei que meu nome apareceu aí.

– Sim, boneca. Mas veja bem, eu não sei que Joyce é você.

– Ah, pára. Como se conhecesse muitas Joyces.

– 7.

– Hein?

– 7. Conheço 7 Joyces.

– Jura? Nossa, nunca conheci nenhuma além de mim.

– Você vê, boneca? É um mundo louco.

– Não foge do assunto! E para de me chamar de boneca.

– Ok.

– Por que você não me ligou?

– Querida, eu não sei nem quem é você. Me dá uma ajuda que te respondo.

– Sou eu. Joyce. De ontem.

– Ontem, ontem….

– Salesbar. Nos conhecemos no Salesbar.

– Ahhhh… to lembrando. Loira, conversamos perto do banheiro.

– Morena. Pista.

– Ah, tá. Essa Joyce.

– Você conheceu outra Joyce ontem?

– É possível. Mas lembro de você sim. Tinha um sapato engraçado.

– Por que você não me ligou?

– Hummm, esqueci algo com você?

– Não.

– Então por que ligaria?

– Oras, porque é de bom tom.

– Jura?

– Ah, vai dizer que não sabe que uma mulher espera que o homem liga depois…depois…que ficamos mais íntimos.

– Querida, nós ficamos íntimos atrás da caixa de som, apoiados em um engradado de cerveja.

– E daí?

– E daí que achei que tínhamos esquecido o bom tom por lá.

– Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

– Pô, não sabia. Na próxima te ligo.

– Próxima vez? O que te faz acreditar que haverá uma próxima vez?

– Ah, sei lá. Gostei de você.

– É?

– Sim, você é a Joyce mais bonita que já conheci.

– Melhor que as outras 6?

– De longe.

– Brigada.

– Que vai fazer hoje boneca?

Dor de dente

Gheremias e Lafayette (isso mesmo …) eram colegas de trabalho há quase 15 anos. Nunca se falaram de verdade. Os primeiros contatos sempre foram no corredor, naqueles famosos “opa” mudos, que todos que trabalham em empresas grandes o suficiente pra ter 1 corredor e mais de uma sala onde você não sabe o nome das pessoas por lá, sempre fazem.

A relação começou a se estreitar após almoços do segundo ano de firma de ambos. Lafayette acabara de passar por um tratamento de canal do qual a anestesia não pegou e depois da dor que sentira jurou aos céus que daquele dia em diante, cuidaria dos seus dentes melhor do que sua coleção de aeromodelos.

O ritual de escovação do Gheremias já demorava por volta de 10 minutos. Incluindo escovação, limpeza com fita dental (dentes largos, o fio não fazia efeito, explicou ele uma vez, tímido), limpador de língua, outra escovação, enxaguante e AHHHH! Que boca limpinha!

Lafayette rapidamente chegou aos 10 minutos de ritual e aos poucos começou a ganhar respeito do colega. O primeiro indício foi receber o aviso que a pia do canto, próxima ao pegador de papel-toalha, não era uma boa escolha, pois fica eternamente molhada com o respingo das mãos úmidas que lá sempre aparecem em busca das tais 2 folhas secas (nunca suficientes); depois, pelas trocas de experiências com os creme dentais (pasta de dente era ofensa grave por lá!), e culminou com a admiração total no dia que Lafayette trouxe, preocupado com o colega, um folheto explicando os danos do hábito de palitar os dentes pela moderna odontologia estética.

Por quase 13 anos tudo isso acontecia de maneira quase silente. Os contatos, a admiração, as trocas, eram feitas no máximo por algumas palavras, enquanto um estava alternando de procedimento (da escovação para a fita dental, por exemplo) e o outro, firme, seguia o seu protocolo. Foram belos 13 anos.

Um dia, Lafayette esperou Gheremias passar pela sua baia com a nécessaire em mãos e depois de uns 3 minutos, também foi cuidar de seus dentes (agora muito melhores que seus aeromodelos, a coleção foi vendida após o 1º casamento). Ao entrar no banheiro viu que havia um postulante a novo membro do grupo : Aurelho (não é Aurélio, é Aurelho). Menino novo, aparentemente criado pela avó que era obsessiva com os dentes de “marfim” do menino, explicou ele logo de início de conversa.

E o tal Aurelho falava. Como falava o Aurelho.

E Gheremias começou a não gostar dessa história.

Em um mês de convivência, Aurelho já tinha arrancado informações de Lafayette que Gheremias, em 13 anos, nunca ousou pensar.

Até que em outro dia Gheremias desviou, como sempre fazia, o que seria o caminho mais curto para o banheiro, passando em frente à baia do Lafayette. Ninguém sentava ali. Estranho. Ao se aproximar do banheiro, risadas altas e despreocupadas começaram a ferir os ouvidos do pobre veterano. Ao abrir a porta, o pior de todos os pesadelos : 1 pia interditada, 2 pias ocupadas (uma por Lafayette, outra por Aurelho), e apenas uma pia livre. A pia do canto.

Lafayette, engolindo seco o riso, se virou assustado e rapidamente disse:
–    Calma! Eu posso explicar tudo!
–    Não, Lafayette. A pia do canto não tem explicação!
–    Não é o que você está pensando!
–    Chega!

Anos depois, Gheremias foi encontrado por um vendedor da firma como taxista noturno. Palito de dente na boca, dentes acabados e, principalmente, um emprego que não tinha colegas, nem hora de almoço. Melhor prevenir …