Vovôs Vintões

Sou velho. Não segundo meu RG, mas de acordo com um monte de gente. A calvície precoce e a barriga ajudam, mas falam isso por causa das coisas que penso e faço. Ou não faço, na verdade.

Odeio filas, odeio barulho demais e odeio multidões. Sou daqueles que não conseguem achar festa de torcida bonita nem pela TV. E shows então? Pelo amor de Deus, o que é aquele povo todo se socando para ver uns pontinhos pulando no palco? Isso sem contar o som, muito alto e muito distorcido.

Em um dos poucos shows a que fui – e no único que eu realmente gostei – eu estava lá atrás. A uns 15 metros de distância do palco. Dava até para ver quem estava tocando. Pô, quinze metros é uma distância menor do que um fila de cinema na sexta a noite ou de uma danceteria da moda ( em qualquer dia da semana ). Não é nada perto dos engarrafamentos nas estradas em feriadões. E é bem mais do que o que andamos nos shoppings sem tropeçar – literalmente – em outra pessoa. Especialmente durante datas especiais, como Dia dos Namorados ou Natal.

Os melhores lugares para gente como eu freqüentar são pequenos, tranquilos e vazios. O que não deixa de ser um problema, porque se o lugar vinga, fica cheio, agitado e barulhento. Se não vinga, acaba fechando. São pouquíssimos os que se mantém ao longo dos anos com aqueles fregueses contados, mas fiéis – os outros “velhos”. Se bem que sempre se cruza com um velho autêntico nesses lugares.

É engraçado. Para os outros, gente que gosta desse esquema mais sossegado não tem preferência. Tem mania. Cada negativa em ir a um cinema lotado ou em mofar do lado de fora de uma danceteria é acompanhada por um quase mecânico “Deixa de ser velho!”. E isso já é uma evolução, porque no começo é sempre “Deixa de ser chato!”. Com o tempo as pessoas se acostumam com a idéia de que filas e multidões podem incomodar de verdade e por isso, ao invés de chatos, os sossegados viram velhos maníacos ( bem antes do tempo ).

Mas nem tudo é sofrimento. Um “velho” arrastado para as trincheiras pode ser muito perigoso. Não existe ninguém capaz de resistir a horas de humor ácido misturado com cinismo. Destilado em doses homeopáticas, é claro. Tudo é motivo para gracinhas – filas, bebidas, estacionamento, consumação, mulheres, músicas, e mais importante, foras que ele tomou. Quando o inevitável acontecer e o “velho” ouvir comentários sobre a sua idade, ele serenamente responderá: “Ah, Deixa de ser criança!”.

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