Biologia e RH

Uma sala no vigésimo andar de um elegante arranha-céu. A vista é uma das mais bonitas da cidade, mas o que chamava a atenção dos passantes era a bizarra escultura humana no centro do cômodo. Homens e mulheres estavam completamente embaralhados: pé de um no ombro do outro, cotovelo do outro na barriga do um, a mão deste no seio de uma morena maravilhosa. Uma bagunça, impossível saber onde um acabava e outro começava.

O estranho espetáculo era fruto da missão de vida das duas mulheres distantes alguns passos dos jovens contorcionistas. Recrutadoras. Além do tailleur azul marinho e da meia fio 40 branca, elas compartilhavam a obsessão de encontrar o Candidato – a peça ideal, compatível com qualquer engrenagem corporativa. O perfil dele ( ou dela ) estava na ponta das línguas: Jovem e moderno, dizia uma, Mas com experiência, retrucava a outra. A primeira insistia, Precisa ser ousado, criativo e inovador; e a segunda de novo rebatia, Mas tem que respeitar a hierarquia e os processos. Cada característica citada imediatamente ganhava a companhia do seu oposto. Elas pareciam concordar apenas que o Candidato era a soma de tudo que elas citassem.

Também eram afinadas se defendendo dos céticos. Quando estavam acuadas contavam um case, o maior de todos, diziam. E disparavam a falar dos Três Grandes, encarregados de achar o Candidato para uma empresa familiar que tentava se estabelecer. Durante anos eles vasculharam o mundo inteiro até que, bem relacionados, receberam uma dica de uma estrela. Encontraram o Candidato em uma manjedoura, num estábulo no meio do deserto. Mas elas já não falavam disso com o mesmo entusiasmo dos primeiros anos. Por mais recursos que tivessem, por mais que se atualizassem, não o encontravam. Estavam sempre um passo atrás.

Foi na palestra do grande guru do momento – elas sempre iam ver o guru do momento – que tiveram o estalo. Não é uma pessoa que faz uma organização, mas várias! Até o eleito dos Três Grandes precisou de um staff. O Candidato não era uma pessoa, era um grupo! Elas se lançaram na nova cruzada com ânimo renovado e logo nasceu a idéia de simular um organismo. O comportamento de cada candidato durante a simulação indicaria o seu futuro papel na empresa. Simples, genial e a razão da estranha cena naquela sala de vigésimo andar.

Mas não se podia negar a eficiência da técnica. As pessoas do bolo já funcionavam perfeitamente como uma empresa. Já tinha um grupo revoltado com os folgados apoiados neles. Um outro estava reclamando da dinâmica idiota, e ouvindo dos vizinhos que idiota eram eles, cala a boca antes que alguém ouça. E tinha, claro, o engraçadinho agarrado no talento da morena. Até que ela resolveu peitar o palhaço e partiu para cima dele. Todos vieram abaixo e ninguém levantou até a segurança separá-los. As recrutadoras não contrataram ninguém desse grupo, nem de nenhum outros que elas testaram. A coisa sempre acabava do mesmo jeito.

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