Figuração

A História às vezes é cruel. Enterrados sob a trama ou sob a indiferença da platéia, personagens cheios de potencial acabam esquecidos. Um dos maiores injustiçados nos nossos 500 anos de folhetim é o coco. Fruta séria, jeitão sisudo e casca grossa, ele intimida. É fácil esquecer que debaixo da superfície dura está um coração que, de tão mole, é líquido. Acho que foi por causa da aparência rude que ele foi atropelado pelos acontecimentos e desprezado pelo público.

O coco perdeu o seu lugar na História do Brasil para a banana e seus traços suaves, sorridentes. Desde o quarto capítulo – no século XIX – que o coco apanha da banana. Depois que o Império do café acabou, viramos a República das Bananas. Os hermanos latinos até que tentaram também, mas o máximo que conseguiram foi a pecha de Republiquetas das Bananas. Experimentamos, tentamos, fomos da política do Café com Leite até o Plano Real do frango e do iogurte. Mas nunca deixamos de ser a República das Bananas.

É até lógico que a indústria tenha rendido homenagens à grande estrela. Assim surgiram a bananada, a torta de banana e a banana split, entre outras delícias. Pratos carregados de tradição e de memórias, a maioria gostosas. Já as lembranças sabor coco são recheadas de brigas, principalmente com aquele naco enorme de bala de coco que ficou grudado no dente. Em vários, por sinal. As crianças derrotadas nesses duelos cresceram e decidiram se vingar. Aí inventaram o leite de coco, queimaram a cocada e encaixotaram a água.

Essas aberrações culinárias custaram ao coco o seu lugar no coração dos brasileiros de uma vez por todas. Hoje as pessoas têm duas posições em relação a ele: tem os que não suportam e os que toleram. Mas não tem uma só pessoa que saia em sua defesa. Ao contrário. Já vi gente agredindo freiras só porque elas estavam vendendo docinhos de coco. Os defensores das bananas, em compensação, são vários. A fruta era a convidada de honra em qualquer roupa da Carmen Miranda e foi a paixão da adolescência do Cony. Ele ficava de casinho com bananeiras. Escolhia uma, fazia um furo e mandava ver. Mesmo sendo o coco uma escolha muito mais inteligente por qualquer critério: ergonomia, discrição ou versatilidade. O cinema também adora bananas, e sempre que pode mostra mulheres se deliciando com elas. O coco é tão desprezado que mesmo eu, reclamando da injustiça contra ele, dediquei mais espaço à banana.

Fico pensando no que teria acontecido se lá atrás, no século retrasado, o brasileiro tivesse se apaixonado pelo coco. Talvez nossas sementes gerassem frutos fortes e resistentes e não fossem desperdiçadas com uma bananeirazinha qualquer. E, quem sabe, com uma casca mais grossa não teríamos medo das reviravoltas da História. Já imaginou? A República dos Cocos não teria que sorrir amarelo para ninguém nem viveria encurvada sob o peso do mundo. Não seria tão frágil, tão perecível. Tão banana.

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