Placas

– Para onde?
– Hã?
– Para onde você quer ir? – repete o taxista, limpando a remela do olho e se ajeitando no assento.
O homem já está esparramado no banco de trás. Ele coça a cabeça e aperta os olhos, tentando achar uma resposta. Ou tentando entender a pergunta. O motorista gira o corpo e olha para o passageiro, esperando. O homem dá uma chacoalhada na cabeça, alisa a camisa amarrotada e responde, enrolando a língua.

– Não sssei… Vai indo….
– Cê que sabe – devolve o motorista, já recomposto e animado.

Era daqueles taxistas que adoram uma boa conversa e sofria com os períodos mais fracos, quando não tinha ninguém com quem falar. Como nessa madrugada. Aquele homem era o primeiro passageiro em horas.

– Festão hein?
– Hã?
– O que cê tava. Festão. Tá todo estragado.
– É
– Festa do que?
– Dessspedida de sssolteiro… Minha…
– Despedida de solteiro, é? Vai casar quando? Nem te conto como foi a minha…

E começou a contar, com todos os detalhes – inclusive dados biográficos e referências cruzadas dos participantes. Só sentiu falta de um vocativo para pontuar a história, responsável pela única pausa que fez na narrativa. Perguntou o nome do passageiro.

– É Placa -respondeu o outro, apoiado em uma das janelas, olhando para fora pela outra.

Como já tinha o que queria o taxista não comentou a estranheza do nome. Se não estivesse tão ocupado com a sua história, talvez perguntasse se Placa era apelido ou o quê. Nesse caso o Placa teria respondido que não, Placa não era o nome dele. E também não era bem um apelido… É mais como um sobrenome, diria.

O nome mesmo era Vinícius, mas desde pequeno que ele era conhecido como Placa. O apelido, meio sobrenome, só pegou por causa dos pais. Um dia o menino chegou da escola chorando e veio reclamar com eles. Não demonstraram, mas acharam graça e comentaram com outras pessoas. Assim o Vinícius virou o Placa – ou Plaquinha, na época.

Os pais tinham sido os primeiros a notar a estranha fascinação do pequeno Vinícius. Ao contrário da maioria dos bebês, o Vinícius adorava andar de carro. Só de vez em quando que dava trabalho. Foi no meio de uma viagem para o interior que a mãe notou o padrão: o Vinícius só criava caso quando a estrada não era sinalizada. O pai estranhou a sugestão de consciência precoce do filho com a má sinalização das rodovias e não falou nada. Era uma idéia maluca. Ficaram em silêncio, mas prestando atenção. Realmente, cada placa de marcação de quilômetro ou de posto de serviço era saudada com um daqueles sons indefiníveis que bebês fazem. À noite, quando voltavam, o menino só dava um tempo no choro quando o farol iluminava um desses pontos verdes e mal colocados. A incredulidade não resistiu até o fim da viagem.

O Vinícius cresceu assim, fascinado por placas. E não por qualquer placa. Ele não queria saber de placas de velocidade ou daquelas amarelas avisando os motoristas sobre improváveis chuvas de pedras. Ele gostava das que diziam onde ele estava e para onde estava indo. Colecionava imagens dessas placas febrilmente. No começo foi difícil arranjar ajuda, mas a cara de choro – ou de decepção, quando ficou velho demais para chorar – foi vencendo os obstáculos. Parentes e amigos incrédulos eram escalados para trazerem fotos de placas quando viajavam. E os pais, resignados, pagavam a conta. Máquina, filme, revelação, todas as despesas corriam por conta dos pais do Placa – inclusive as dos viajantes, para compensar o favor. Chegavam imagens do Brasil inteiro e mesmo do exterior. Grandes fotógrafos acabaram surgindo às custas do paitrocínio do Placa.

As fotos que ele recebia e as que garimpava dos Detrans – onde virou figurinha obrigatória – iam para um gigantesco mural no quarto dele. Formavam o mapa da sua vida. “Franca – 85 Km”, por exemplo, era aquele primeiro romance de verão na praia. A incompatibilidade geográfica é culpa do critério subjetivo do Placa, capaz de tornar Frankfurt e Goiânia cidades vizinhas. Ali estavam indicados todos os lugares onde ele tinha ido e aonde pretendia ir. Toda noite, antes de dormir, ele ficava olhando o mapa e pensando.

Com o tempo os pontos não visitados aumentaram. Foi quando ele percebeu que as placas já visitadas estavam cada vez mais longe também. Ele sofria com cada novo ponto que surgia e com cada ponto antigo que se afastava. A cada noite a frustração aumentava. Logo o mapa se tornou um monte de fotos na parede. Não significavam nada além de sonhos frustrados e lembranças emboloradas.

Esqueceu as placas e tocou a vida. Saiu de casa, fez faculdade e galinhou um pouco antes de engatar um namoro sério com a Ana. Juntos, traçaram um monte de planos para o futuro. Desenharam um novo mapa – com começo, meio, fim e organização lógica. Agora que a carreira dos dois começava a decolar eles estavam prontos para começar a viagem e seguir a rota escolhida. Iam casar. Ele passou muitas noites em claro olhando para o novo mapa na parede vazia. E pensando.

Era mais ou menos o mesmo olhar que atravessava a janela do táxi. Do lado de fora a paisagem ia mudando, mas o Vinícius nem notava. Até que viu algo conhecido. Agitado, interrompeu a história do motorista:

– Aqui, aqui, vira aqui!

Resolveu ver onde ia dar aquela placa do seu antigo mapa: “Aeroporto – Faixa 1”.

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