Sílabas

O Mauro nunca teve apelido. Na escola, os caras mais legais atendiam por Marcão, Bucha, Maluco, Beto e coisas do tipo. Ele não. Nunca conseguiu ser o Maurão, o Maurinho ou o Mau. Nada. As meninas também se dividiam nas não-apelidadas e nas apelidadas – e o apelido delas nunca tinha mais do que duas sílabas. As apelidadas eram as mais bonitas e as mais cobiçadas. Os meninos ficavam de olho nas Tatis, Lás e Fês, e não nas Carolinas e Patrícias da vida. Naquela única sílaba – no máximo mais uma – estava tudo o que fazia delas o sonho dos meninos de nome inteiro. Não eram apenas os olhos mais iluminados, o par de pernas mais bonitos, os seios mais espetaculares. Não, tinha alguma coisa mais, alguma coisa que completava aquelas duas sílabas. Era a promessa da mulher dos sonhos, da deusa adolescente do sexo.
O Mauro sabia disso e sabia que elas eram inatingíveis. Ele babava na Dani, batizada Daniela, mas que tinha nascido para ser Dani mesmo. Ela tinha aquelas duas sílabas, e ele tinha aquele nome inteiro – ainda que também com duas sílabas. Ele tinha tudo e ela não tinha algo e não tendo algo, tinha tudo. E por isso nunca se falaram. O tempo foi passando e o Mauro teve outras Danis. Ele nunca falou com nenhuma delas, mas ficou com todas. Elas eram lindas e insaciáveis, topavam qualquer coisa que ele quisesse. E ele era tudo o que elas sempre quiseram. Ah, se alguma tivesse falado com ele.

Um dia uma Dani ignorou o abismo – o nome completo dele – e falou com o Mauro. Essa Dani se chamava Lu. Eles começaram a conversar, e foram conversando cada vez mais e cada vez mais de perto. Finalmente a sílaba que escondia a mulher com que o Mauro tanto sonhou estava ao seu alcance.

Mas a euforia não durou muito. O Mauro conhecia muito bem os furacões sexuais que se escondiam atrás dos apelidos monossilábicos, e começou a se perguntar se daria conta daquilo tudo. Até ali ele sempre tinha dado, o problema é que elas – Danis – é que nunca tinham. Não para ele, pelo menos. Para piorar, mesmo as mulheres normais, com seus nomes completos, já davam um trabalhão. Que chance ele tinha de ser o que a Lu – a ninfomaníaca monossilábica da Lu – queria? Nenhuma. Ele morria de medo de dormirem juntos e ele acordar sozinho. Isso não podia acontecer.

Desesperado, apelou. Sempre que a coisa esquentava, ele dava um jeito de sair pela tangente. E cada vez que fazia isso queria morrer. Aquela sílaba continuava inatingível para ele e seu nome inteiro. Não era justo. Por que a Lu não tinha respeitado o abismo? Por que? Ela também se perguntava isso. Tinha certeza que o Mauro não queria nada com ela, e não entendia porque agüentava as desculpas horrorosas, chorava a noite inteira e ainda insistia nele. O pior é que o problema dela não era arrumar outro homem, era gostar de verdade do Mauro. Ela ficou firme um tempo, mas um dia não aguentou mais e desabou. Chorava muito, não parava de jeito nenhum. O Mauro não sabia o que fazer. Sem alternativa, esqueceu do medo e fez o que mais queria: a abraçou bem forte e não soltou mais. Finalmente percebeu que não conhecia a Lu. Aliás, Luciana.

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