Bailão

A semente do homem social não foi a pinça nem o polegar opositor. Muito menos o domínio da agricultura. O nosso salto evolutivo foi aprender a articular sons, variar os fonemas e formar palavras. Foi aí que abandonamos os ruídos e cada coisinha do mundo ganhou um som próprio, característico. Quando o homem das cavernas terminou de dar nome às coisas, voltou-se para ele mesmo. Intuiu a alma, e aprendeu a cantar ( ou o contrário ). Finalmente as civilizações que floresciam podiam ser cantadas por seus filhos.
O problema é que eram filhos demais, e poucos deles eram talentosos. Que civilização poderia se sentir homenageada sendo mal cantada? Não havia como. Assim, para evitar o suicídio dessas pujantes sociedades, os músicos foram profissionalizados. Apenas aqueles dotados de um talento mínimo poderiam seguir cantando. Além das vantagens óbvias para o ouvido das pessoas, a regularização dos bardos instituiu o banho privado. Sozinhos, em seus banheiros de paredes grossas, os piores cantores do mundo podiam cantar tão mal quanto pudessem sem serem importunados.

Agora profissionais, os músicos passaram a exigir um mínimo de condição de trabalho. Depois de uma rápida greve, conseguiram a criação de espaços reservados e a obrigatoriedade do silêncio durante as suas apresentações. Logicamente esses dois itens dependiam do prestígio do músico e do lugar onde ele se apresentava. Os melhores conseguiam o respeito da platéia em qualquer taverna, mesmo nas mais fuleiras. Já os piores corriam o risco de terem dedos e línguas arrancados pelo rei. Mas de forma geral foram conquistas importantes dos bardos.

Por causa delas a segunda revolução do som começou sem barulho. Era uma apresentação das mais respeitáveis e todos estavam quietos. Os bardos tocavam concentrados. Até que, devagar, alguém começou a se mexer. Sentado mesmo. Depois levantou e começou a fazer uma série de movimentos desconexos. Notando a perturbação da banda, um dos freqüentadores mais tradicionais e mais temidos da taverna partiu a cabeça daquele inconveniente em duas. Para comemorar a vitória e debochar da sua vítima, o agressor começou a imitar o recém falecido. Só que ele gostou da brincadeira e não parou mais de pular. Ao contrário, até chamou uns amigos para pularem com ele. Foi o primeiro show de heavy metal da história. É claro que a novidade se espalhou e mais e mais pessoas começaram a se mexer quando havia música – sempre observando a regra de partir a cabeça de quem levantasse primeiro. Foi também só uma questão de tempo até as pessoas encaixarem os seus movimentos ao andamento da música.

A popularização da dança revelou alguns grandes talentos, e ela ameaçou se profissionalizar. Logo surgiram espaços especiais nos salões para os mais hábeis. As pessoas adoravam. Tinha até gente que ia só para ver os outros dançarem. Os músicos foram perdendo cada vez mais espaço e acabaram deslocados para um fosso. No palco colocaram os melhores dançarinos. Mas ao contrário do que aconteceu com a música, a profissionalização da dança não restringiu os maus dançarinos ao banheiro. Ela permaneceu ao alcance de todos.

Povos inteiros passaram a se identificar com movimentos específicos. Os espanhóis expansionistas e quixotescos tinham o flamenco de movimentos fortes e sensuais. Os portugueses, sem rei e quase fora da Europa, tinham o fado. Ficavam girando em torno de si mesmos indefinidamente, procurando pela glória perdida. Já as culturas orientais dançavam com gestos graciosos e estudados. Os brasileiros também acharam a sua dança: o samba.

O samba não tem coerência nenhuma, regra nenhuma. Só ginga. E ainda assim, tem um jeito certo de dançar. A misteriosa gingada brasileira se estende também às danças regionais, seja ela funk, axé ou forró. Os gringos – duros e burocráticos – não entendem como nos mexemos desse jeito. Ficam fascinados. Não fazem idéia de que a nossa cintura é solta porque nunca sabemos qual música teremos que dançar amanhã.

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