Frente Fria

A mulher tem o poder sobre a vida e a morte da nossa espécie. E os homens, o impulso de perpetuá-la – ou de tentar, que é mais divertido – com o maior número de parceiras possível. Ou seja, nós temos a vontade e elas têm o doce. Elas descobriram isso muito antes de nós, e transformaram esse conhecimento em poder. Tornaram-se – ou decidiram se assumir – inconstantes e caprichosas, sim, com muito orgulho.
A proibição no uso da lógica nos relacionamentos entre os gêneros foi o golpe de misericórdia. Elas haviam vencido. Nunca mais um homem pôde formular uma resposta usando argumentos práticos, e a lógica passou a ser de uso exclusivamente científico – aplicada apenas na construção do mundo que elas desejam. Acuados, os homens se mantém atentos às vontades femininas e reféns de suas mudanças de humores. A natureza tem um fenômeno parecido com a mulher: o clima.

O clima é uma força poderosíssima e insondável à qual todos estamos sujeitos. E que apesar de tudo isso gasta grande parte do seu tempo espezinhando seres insignificantes ( como os metereologistas ). Narcisista como a famosa da semana, o clima adora se exibir para as câmeras dos satélites e não se importa de ver as suas frentes frias na TV. Ele mostra tudo! Mas isso não quer dizer que se torne mais acessível. Só sabemos que não somos ignorados porque ele insiste em nos infernizar. Olha o caso de São Paulo. Aqui temos umas 7 estações por dia, com a temperatura variando mais de dezessete graus em menos de 24 horas. É um desses lugares em que o sol some em questão de segundos e em que a distância entre o calor desértico e um dilúvio não é maior do que alguns minutos.

A convivência forçada com a instabilidade acaba dando algumas pistas – não comprováveis empiricamente – para as possíveis flutuações de humor. Se você sai de casa carregando um guarda chuva, por exemplo, as chances de chover caem. Especialmente se o seu guarda chuva for grande e você for obrigado a carregá-lo o dia inteiro. Nesse caso a chance de haver precipitações beira o zero. Agora, se você saiu sem guarda-chuva e tiver que andar um bom trecho a pé, a possibilidade de pegar uma tempestade no meio do caminho é enorme. É claro que temos poder também sobre o sol. Ele é diretamente proporcional à quantidade de casacos que estamos vestindo. Quando mais agasalhos, maior o calor. Uma das técnicas mais eficientes para levantar a temperatura é vestir meias grossas.

Meias grossas e calor, todos sabem, é a receita do desastre. Afinal, o pé é a nossa parte mais sensível a temperaturas. Um pé com calor provoca transpiração intensa em todo o corpo, e não pode ser combatido nem com ar condicionado. O frio no pé é igualmente resistente e ainda mais irritante. Ele tem mania de fazer pouco das nossas tentativas de aquecê-lo, ignorando solenemente bolsas de água quente e pantufas. Continua lá até ter arruinado completamente a sua noite de sono.

O mais assustador é que o frio no pé chega para todos. Conheço muita gente que dizia não ter, mas que com o passar do tempo teve de recorrer aos meiões. Nenhum deles sabe dizer quando o frio chegou. Para uns parece ter sido na primeira noite no apartamento de solteiro. Outros especulam que pode ter sido quando a roda de amigos afrouxou e, sem aquela animação de antes, acabaram sentindo o orvalho da madrugada. Pode ter sido a necessidade de congelar planos em favor de questões mais urgentes. Ou será que foi quando os pés dela deixaram os dele sozinhos debaixo da coberta? Ninguém sabe. Só sabem que precisam de muitas meias – daquelas, que nos matam de calor – para se sentirem aquecidos.

Pensando bem, de repente o clima não tem só a volubilidade feminina… Talvez tenha também um pouco daquele carinho maternal. Vai saber se ele não está dando uma de mãe e fazendo a gente guardar nossas meias grossas para quando precisarmos delas.

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