SAC(o)

– No caso o senhor gostaria de estar reagendando ou reclamando?
– Olha, eu quero é resolver o problema….
– Ah, perfeito, senhor. No caso vou estar transferindo o senhor para o departamento responsável, senhor.
– Não, pera… – tarde demais, já estou na espera. Fico ali por quinze minutos, torcendo para que lembrem de mim. Alguém lembra. Explico de novo o problema, e recebo uma resposta vagamente familiar.
– No caso o senhor gostaria de estar reagendando ou reclamando?
Seria mais útil terem me transferido para uma secretária eletrônica. Essas, sim, estão cada vez mais eficientes e prestativas. Sempre que ligo para um SAC acabo agradecendo o empenho dos cientistas em dar às máquinas poder analítico e raciocínio dedutivo – qualidades que as mocinhas de tele-atendimento não têm. Graças a eles é mais rápido conseguir informações de uma central de atendimento automático do que das mocinhas.

Não que o interesse deles em inteligência artificial tenha alguma coisa a ver com o bem da humanidade. Longe disso. Acho que um dia um pesquisador ligou para um SAC e ficou pendurado ouvindo uma rádio brega. Depois de amargar a espera, tentou de todos os jeitos fazer a mocinha entender o seu problema. Mas ela estava armada com um escudo defletor de argumentos, impenetrável pela lógica. Era como falar sozinho. Naquele momento ele se perguntou se “mocinha do tele-atendimento” não é só um modo carinhoso de se referir a um objeto inanimado. E pensou como seria bom se do outro lado tivesse uma máquina que ouvisse as queixas e respondesse de acordo. Uma que funcionasse de verdade e não repetisse sempre as mesmas quatro respostas pré-programadas.

As pesquisas começaram e logo ficou claro que a dimensão do problema era muito maior – assim como os benefícios que a Inteligência Artificial traria. A incapacidade daquele cientista se fazer entender pela mocinha – do tele-atendimento ou qualquer outra – era a mesma desde o começo dos tempos. Aquele era o modelo mais puro de comunicação entre homens e mulheres. Assim, criar uma mocinha de tele-atendimento automática e inteligente passou a ser a fronteira final. Chegar nela é conseguir a chave para entender as mulheres.

O idioma das mulheres é o maior dos mistérios que o homem já enfrentou. No começo os homens não se importam, porque meninos não querem saber de meninas ( e vice-versa ). Mas chega o dia em que nasce um interesse mútuo na aproximação. É quando descobrimos que homens e mulheres falam línguas diferentes. Passado o desespero inicial, o homem se volta para as lições dos seus antepassados e descobre os dois únicos jeitos de vencer a barreira do idioma feminino. O primeiro é apelar para o instinto delas, coisa que só consegue quem é bonito, atlético ou planta bananeira. Aos outros 99% da população masculina resta a segunda forma: aprender a falar um dialeto próximo da língua delas. Isso é tão difícil quanto aprender sozinho uma língua morta.

Como em qualquer pesquisa séria sobre algo completamente desconhecido, o passo inicial é atirar para todos os lados. Com tempo, persistência e sorte, os resultados começam a aparecer. Tinta, por exemplo, pode virar imagem e sugestão, e palavras e sons se transformam em poesia e sonho. Essas descobertas abriram caminho para um entendimento mínimo entre os gêneros, mas a jornada até que homens e mocinhas falem a mesma língua ainda é longa. Tive que reagendar.

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