O W da Questão

Queria passar em branco e não comentar os acontecimentos da semana passada. Resisti aos primeiros impulsos e fiquei firme mesmo quando a poeira foi – literalmente – baixando e novas perspectivas do ataque aos EUA ( ops, falei ) foram surgindo. Enquanto eu mantinha meu silêncio todo mundo falou alguma coisa, e no fim nenhum ângulo da questão deixou de ser comentado. Abordaram a surpresa e brutalidade do atentado, seus efeitos no mundo, possíveis conspirações, o sofrimento das vítimas, a ação da mídia, a iminência da guerra, a persistência da ameaça, a satisfação secreta do mundo, tudo. Como não tenho nada a acrescentar ao que já foi dito, vou falar de TV.
A televisão norte americana é dominada pelo que chamamos de enlatados – aqueles famosos e mal dublados seriados. Toda a imensa produção deles se encaixa em um de dois gêneros. Os seriados podem ser dramas, mais sérios, ou comédias de situação – os sitcoms. Os dramas têm como temas recorrentes as instituições americanas. A maioria desses programas tem como pano de fundo hospitais, tribunais, delegacias ou quartéis. Nesses lugares circulam pessoas metidas em situações limites nas suas batalhas contra as injustiças do sistema de que fazem parte. Em sua luta contra o mal, os heróis têm seus valores e caráter testados ao máximo. Eles superam os obstáculos, mas não sem amargar o sofrimento que colocar o bem maior antes do próprio traz. Paciência, é o preço que se paga por fazer a coisa certa. Deve ter dado para perceber que os dramas não têm muito segredo: é o bem contra o mal.

As comédias de situação podem ser sobre qualquer coisa. De uma criança superdotada a uma advogada que tem alucinações com Al Green; de uma turma dos anos 70 a uma dos 90 fazendo um show sobre nada. Nos sitcoms a história surge de desencontros e mal entendidos do cotidiano, e a graça está na normalidade levada ao ponto da anormalidade. Nesses programas o bem e o mal não existem de forma absoluta. Ao contrário. Neles, até a amoralidade tem vez, e por causa disso os personagens convivem com sentimentos e ações contraditórias. São mais parecidos com a gente. Mas por pior que seja a confusão em que se metem, no fim as coisas sempre se ajeitam. Sem ninguém ter perdido nem a piada nem o amigo. No fundo sitcoms são histórias de pessoas convivendo umas com as outras.

O cenário político norte-americano no século XX foi dominado pelos dramas. E não à toa, já que sempre havia um inimigo a ser combatido. Nos primeiros cinquenta anos foram os alemães, e depois, nos quarenta seguintes, a URSS. Enquanto o país lutava contra o vilão vermelho, na sua sala de estar os americanos assitiam ao bem triunfar sobre o mal em outras batalhas. E assim foi, até o dia em que os EUA deram uma de astros do horário nobre e finalmente destruiram o maligno império socialista. Eles só não contavam com o vazio que veio depois da vitória. Pela primeira vez em cem anos eles não tinham com quem brigar. Estavam sem inimigos. Tentaram eleger outros adversários, como japoneses e árabes, mas eles não vingaram. Por falta de opção os russos continuaram donos do papel, agora como máfia. Mas não era a mesma coisa. Afinal, mafiosos são bandidos comuns, certo? Ficou claro que o drama não servia mais. Não cabia num mundo sem vilões.

Um carismático governador sulista entendeu a situação e descobriu como viver com a vitória do ideal americano. Graças a isso chegou à Casa Branca, inaugurando a Era do Sitcom. Ele era perfeito para o papel. Em pouco tempo suas peripécias incluiam escândalos sexuais, empreendimentos imobiliários mal explicados e a escapulida da convocação para a Guerra do Vietnã. E ainda por cima sabia tocar saxofone e fumar maconha sem tragar. Durante vários anos, líderes do mundo inteiro passaram pela sala de estar oval dos Clinton com seus problemas. Quase nenhum foi definitivamente resolvido, mas o impasse nunca persistiu. De um jeito ou de outro a confusão se desfazia e os episódios terminavam com sorrisos e apertos de mão.

Depois de oito temporadas o público cansou das estripulias de seu presidente. Em uma eleição que fez jus ao gênero dos anos Clinton – e ela merece uma crônica só para ela – um cowboy bronco e beberrão ganhou o papel. George W. Bush foi eleito o novo mocinho dos EUA. Em apenas sete meses o novo presidente-herói mostrou a que veio. Como não tinha um inimigo claro, começou a provocar todo mundo para ver se alguém se candidatava. Jogou o tratado de Kyoto no lixo, largou os palestinos – coadjuvantes preferidos de Clinton – à própria sorte, e boicotou a conferência internacional contra o racismo. Parece que o plano deu certo e ele finalmente descolou uma guerra.

O início do governo Bush esclareceu a cena final do governo Clinton. Antes dos novos astros chegarem, a equipe de Clinton tirou o botão da letra “W” de todos os teclados da Casa Branca – para aporrinhar o Bush, impedindo que inicial que o diferenciava do pai fosse digitada. Todos achamos que era a piada final, mas na verdade aquilo era o começo do novo drama. Removendo essa tecla, Clinton e seus assessores tentavam tirar do alcance de Forrest Bush duas palavras: World e War. Valeu a tentativa.

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4 Comentários on "O W da Questão"

  • Renata diz

    Opa! Quer dizer que eu sou a primeira? ÊBA!

    Mnadou bem, Paulão!!!! Agora, aguardamos a crônica sobre as eleições Bush-Gore (quem sabe você não faz uma série da saga americana na visão do cronista – em todos sos sentidos da palavra – Paulo Coelho? Já até imagino a musica do Dallas por trás…)

  • Renata diz

    Poxa, só eu falo? Vamo falá, aí, povo!!!

  • Anônimo diz

    achei bom que vcs continue assim bjsssssssssssssss
    ass;dheini

  • achei bom que vcs continue assim bjsssssssssssssss
    ass;dheini

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