Rotina

Quarta-feira, finzinho de tarde ensolarado. Perfeito para um chopinho ou dois. O Fabão estava se preparando para dar o primeiro gole do segundo chope quando o Jair chegou.
– Fala, viado!!
– Que é isso, mano, tá me estranhando? Viado é a mãe!!
– Não precisa disfarçar….
– Ah, cala a boca e toma uma cerveja

A essa gentil troca de palavras seguia-se sempre um abraço e dois tapinhas do Jair nas costas do Fabão. Era de praxe entre eles. Esse era o ritual de saudação dos dois amigos, que sempre se encontravam às quartas feiras no finzinho da tarde – ensolarada ou não, porque todas elas são perfeitas para um chopinho – sempre ali mesmo, naquele mesmo bar, naquela mesma mesa. Eles sentavam nos mesmos lugares – o Fabão de costas para a parede, o Jair de costas para o balcão – e o Jair sempre chegava quando o Fabão ia começar o segundo chope. Fazia anos que era a mesma coisa, sem mudar nada. Uma rotina sagrada.

Ao contrário da maioria das pessoas, o Fabão e o Jair não tinham nada contra a rotina. Nem podiam. Graças a ela que eles conseguiram se manter unidos por tanto tempo. Não fosse o bom e velho chopinho crepuscular das quartas, talvez eles não tivessem resistido às turmas diferentes, às profissões diferentes, aos casamentos. Para eles a rotina é uma espécie de fio de Ariadne, guiando-os pelo labirinto caótico do cotidiano.

São poucos os que pensam assim. O normal é uma relação conturbada com a rotina. E até dá para entender o porquê. Se não desenrolamos o novelo direito podemos acabar presos em um emaranhado de pequenas obrigações. E aí não adianta brigar, senão corremos o risco de partir a meada e piorar ainda mais a situação. Sem o fio vagaríamos a esmo pelo labirinto do dia a dia, sem saber onde estivemos nem para onde devemos ir.

Com um fantasma desses é fácil não perceber as vantagens de viver bem com a rotina. E olha que ela pode ser bem tranqüila. A gente até pode dar umas escapadas de vez em quando, fingir que ela não está lá. Ela não liga. A rotina sabe que precisamos dela, que sentimos a sua falta. O Jair que o diga. Na quarta passada ele chegou no bar do jeitão de sempre.

– Fala, viado!!!
O Fabão não respondeu. Ele tentou de novo.
– Fala, viado!!
– Se você me chamar de viado de novo eu te arrebento! – vociferou o Fabão, com o bafo de pinga.

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4 Comentários on "Rotina"

  • Ricardo diz

    Nada como o bom e velho Paulão pra defender (e convencer!) algo tão mal falado como a nossa boa e velha Rotina!

    Assino embaixo!

  • Paulo diz

    Que mico!! Valeu, cara!!

  • paulo roberto vasconcellos diz

    Achei engraçado vc usar o xingamento como saudação. Realmente é assim que a gente (pelo menos em sampa) cumprimenta os amigos mais chegados. Engraçado isso: o xingamento é um sinal de intimidade. Um bom cronista consegue captar essas ironias do cotidiano. Parabéns.

    Obs: disfarça a arruma o “quarta-feira” do início da crônica.

  • paulo roberto vasconcellos diz

    ops, é “disfarça e arruma…”

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