A Fonte

“Se chegou aqui, você é inteligente. Será que é sábio também?”
Essa pergunta não era bem o que o professor Von Brock esperava encontrar depois de quatro anos de procura. Não por nada, mas depois de uma vida inteira de estudos, pesquisas e uma nobre cruzada, ele podia não ser o mais sábio dos homens, mas também não era nenhum ignorante. E não é justo acusar o maior arqueólogo de todos os tempos de não saber de nada.

Sim, o professor Edgard Von Brockharst é o maior arqueólogo que já viveu. Mas quase ninguém sabe. Por que? Bom, a razão do seu anonimato está em uma revelação que ele teve ainda no começo da carreira. Von Brock estava de férias, relaxando nas ruínas da antiga Roma, quando viu uma marca em uma coluna de mármore milenar. A inscrição dizia ´Gui 1962´. Mesmo irritado resolveu continuar o passeio, e dirigiu-se para a Via Ápia. Ali descobriu que as catacumbas cristãs do século I tinham corrimão de alumínio e luz elétrica. As surpresas continuaram a cada atração histórica que visitava. E o desgosto também. Em cada uma delas o homem profanava a memória viva das grandes descobertas. No final das férias ele não podia mais nem fechar os olhos. Se fechava, via hordas de turistas com garrafinhas de plástico e olhos nas pontas dos dedos.

Quando voltou para a faculdade onde dava aula, trouxe na bagagem uma missão: proteger a memória dos povos antigos dos ímpios e gananciosos. Se era para tratar a história com tanto descaso, era melhor que ela não fosse conhecida, que os grandes povos do passado ficassem por lá mesmo. Daquelas férias em diante ele seria o protetor da memória da humanidade, mesmo que para isso ela – a humanidade – não pudesse mais lembrar. Ele iria procurar os segredos do passado para escondê-los melhor.

A sua vida se tornou uma cruzada. Passava metade do ano lecionando e estudando e a outra metade em expedições, sempre mal sucedidas. Pelo menos do ponto de vista científico, porque os alunos que iam com Von Brock voltavam fascinados com o mestre. Ninguém entendia como o fracasso podia inspirar tanto respeito nos alunos. Depois de sete incursões frustradas e com a reputação em frangalhos, ele foi despedido da universidade e expulso da Sociedade Internacional de Arqueologia.

Ao contrário do que se poderia pensar, o professor não se chateou. Desde aquelas férias que Von Brock só tinha colecionado sucessos. As provas estão aí para quem quiser ver. É só dar um pulo na Blockbuster. É que o professor é obstinado, mas não é burro. Sabia que sozinho contra todos os outros exploradores do mundo, ia conseguir esconder muito menos do que os outros iam achar. Então criou uma espécie de Sociedade Internacional de Anti-Arqueologia – SIAA para os íntimos – para poder lutar em pé de igualdade.

Usou a sua posição na universidade para recrutar seguidores e as suas viagens para ganhar dinheiro. Para se ter uma idéia, só a franquia do Indiana Jones rendeu o suficiente para financiar a entidade por uns 30 anos. Isso sem contar os royalties de filmes menores, como A Mina do Rei Salomão e Goonies, e dos novos. O professor Von Brock e os pesquisadores da SIAA são os autores da maioria desses filmes de ação com cidades perdidas e artefatos raros. Concordo com quem disser que como roteiristas eles são ótimos arqueólogos, mas eles não dão bola. Não fazem questão de bons roteiros. Aliás, quanto mais B o filme, melhor. Isso porque além de ser lucrativo, o cinemão desencoraja qualquer consideração mais séria sobre o que estiver na tela. Não há lugar melhor para escondermos a verdade do que no preconceito das pessoas, diz o professor. É claro que dá para encontrar o trabalho da SIAA nas principais publicações científicas também. As pistas plantadas por Von Brock e seus discípulos levaram renomados exploradores a várias “descobertas”, todas devidamente registradas e publicadas.

Von Brock continuou percorrendo o globo e entretendo as multidões por vários anos. Até que um dia ele cansou. Tinha envelhecido. A SIAA estava sólida, deixando-o livre para se aposentar quando quisesse, mas a vida dele era a sua cruzada. Não podia simplesmente parar. Assim, passou os dois anos seguintes enterrado em bibliotecas procurando o caminho para o tempo perdido; e outros dois em seu encalço. Depois de quatro anos chegou à fonte da juventude.

Foi lá que encontrou a inscrição com a desafiadora pergunta: Será que é sábio? Não era o que esperava encontrar, é verdade, mas foi a primeira coisa em anos que arrancou dele uma gargalhada. Ainda dando risadinhas se aproximou da água e viu os seus 63 anos – ok, ok, 65 – refletidos. Ajoelhou-se e bebeu. Quando procurou de novo a sua imagem na água viu-se como há mais de 35 anos não via. Mas alguma coisa não estava certa. Os olhos. Os olhos envelhecidos destoavam do rosto jovem. Von Brock não era sábio, afinal. Senão saberia que o espírito, assim como o tempo, só anda para frente.

Ou então

Ajoelhou-se e bebeu. Revigorado, retomou sua cruzada com novo ímpeto e até hoje impede os grandes achados, nos dando, em troca, filmes divertidíssimos.

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10 Comentários on "A Fonte"

  • Lilian diz

    Só pra pararem de dizer que eu não entro no site…

  • Ricardo diz

    Nossa Paulão … o que vc tomou pra escrever essa crônica ?

    Muito boa !!!

  • Ricardo diz

    Nossa Paulão … o que vc tomou pra escrever essa crônica ?

    Muito boa !!!

  • Gostei do “ou então”. É isso aí Paulão!

  • Goonies !!! Goonies !!! Goonies !!!

  • Leopoldo diz

    Indiana Jones!!! Indiana Jones!!! Indiana Jones!!!

  • Renata diz

    Humm… Acho que eu prefiro o segunbdo final…

  • paulo roberto vasconcellos diz

    Puts, sou o maior fã do doutor von brock e nem sabia! valeu, paulo.

  • Rewbenio diz

    Muito boa historia, e tem boas perolas como: “Não há lugar melhor para escondermos a verdade do que no preconceito das pessoas”.

    Parabens. Soh uma ultima coisa, procurem ler Milton Dias

  • Paulo diz

    Esse fim de semana estava passando no Discovery a história de um cara que acha que descobriu Atlântida, mas que obviamente não é levado a sério. Para você vê como o Von Brock pode estar certo…

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