O Teste do 3×4

Eu olho as fotos da Gisele Bundchen nos editoriais de moda, mas elas não conseguem me convencer da sua beleza. Isso não é um fato isolado, acontece com uma série de outras beldades. O meu problema não é ser fresco, é ser desconfiado. Afinal, todas as belas mulheres que vemos nas revistas e nos filmes estão sempre produzidas. Mesmo que estejam produzidas para parecer que não estão produzidas. A única forma de confirmarmos sua beleza é roubando o RG de uma delas para dar uma olhada na foto. É uma espécie de prova do 3 x 4.

O teste do 3 x 4 é uma prova real da impressão inicial. Se a Gisele estiver bem naquelas fotinhos de máquina, ela vai estar bem em qualquer uma – se não estiver a culpa é do fotógrafo. Apesar de ter concebido essa linda teoria com o nobre fim de não me sentir enganado pelas musas de revista, três incidentes em dois dias me fizeram ver que o teste do 3 x 4 é universal.
O primeiro foi um surto. Me deu uma coceira incontrolável de mandar currículos. Fácil de satisfazer, já que tinha tanto o currículo e a carta de apresentação prontos – fruto do meu surto anterior – como também a facilidade do Speedy. Na base do copiar e colar e sem gastar um único pulso de telefone, ia ser moleza acabar com essa vontade. Só que já no primeiro cadastro me lembrei porque não espalho tantos currículos como deveria.
O cadastro tinha uns 80 itens e mais uns tantos convites para uma reflexão sobre as contribuições que eu poderia dar à empresa. Até aí tudo bem, porque o meu currículo até que é bem cheinho para tão pouco tempo de estrada. Não que eu tenha me destacado em alguma coisa, mas porque já mudei de área umas cinco vezes. E também porque só trabalhei em empresas pequenas e/ou desorganizadas e acabei fazendo de tudo um pouco. Aí é só dizer que domino, sim, o Office e que falo um inglês legal e um espanhol que aos poucos vai saindo da barra do portunhol. Mas nada disso me consolou quando cheguei na parte sobre formação acadêmica. Coloquei a faculdade que acabei, e só. Não tinha nada com que preencher os outros cinco campos do formulário sobre graduação nem os outros cinco sobre pós. A mesma coisa aconteceu com os outros dois cadastros que preenchi. Tinha um que tinha dez – fora de brincadeira, DEZ – campos para cursos de graduação. Fiquei deprimido com a minha pobre formação. Cadastros assim são o 3 x 4 da globalização.
No dia seguinte, ainda com o moral em baixa, fui deixar o meu trabalho de conclusão de curso daquela solitária faculdade que fiz para a professora do mestrado. Estou tentando engatar um. Deixei o trabalho e na saída fui tomado de assalto pela campanha ao DCE. O DCE é o diretório central de estudantes, uma espécie de mega centro acadêmico. Peguei os folhetinhos e dei uma lida neles. Não dá para levar os caras a sério. Olha só. As chapas concorrendo para substituir a gestão Gota D´Água eram a Aliança Jovem Revolucionária e a Ya Basta. As propostas eram praticamente iguais: contra o Provão, não sei por quê; contra as fundações nas faculdades e as empresas juniores, porque são o capitalismo dentro dos muros da universidade; contra a Lei da Responsabilidade Fiscal, que limita o desvario, quer dizer, investimento com o dinheiro público; contra o jubilamento, para os estudantes permanecerem eternamente na faculdade; contra o Vestibular, porque sim; contra a meia entrada, porque querem entrada inteira; apoio às greves, ao invés de ao diálogo; contra o imperialismo mundial, e por uma aliança camponesa-operária-estudantil. Imagino que ao invés de dizer “oi” ou “e aí”, esse pessoal se cumprimenta com “Fora FHC” e “Abaixo FMI”. Ah, eles pedem também o fim da perseguição (!) aos ativistas políticos estudantis. Isso deve ser um protesto contra todos os burgueses nojentos que lêem as propostas acima e não os levam a sério. E também contra o tempo, que levou embora 68 e a ditadura. Triste 3 x 4 desbotado de uma utopia morta.
Saindo desse bolorento sonho socialista, me dirigi ao símbolo do capitalismo: o banco. Não, não fui tirar dinheiro. Fui tentar desbloquear a droga do meu cartão magnético. Dois dias antes tinha recebido um terceiro conjunto de senhas para poder movimentar minha conta. Agora tenho uma segurança tripla. Mas não tenho certeza se isso é mesmo para a minha proteção. Depois de entrar o código novo três vezes e a máquina recusá-lo, bloqueando o meu cartão, fiquei com a clara impressão de que o objetivo era dificultar o acesso. Todos sabemos que os bancos sempre viveram de emprestar o meu dinheiro para você e vice-versa. Quinhentos anos de aperfeiçoamento e três conjuntos de senhas depois, finalmente eles deram um jeito de nos manter afastados das nossas economias. Liguei para o bankfone e a nem precisei explicar qual tinha sido o problema. A mocinha que me atendeu já sabia. Com certeza várias outras pessoas estavam ligando pelo mesmo motivo, e logicamente, sendo aconselhadas a se dirigirem à “agência mais próxima para solicitar uma nova senha”. Será que eles também descobriram o plano do banco? Não sei. Sei é que esse é o 3 x 4 em que a tecnologia serve à insensatez.
A única coisa que não consegui nesses dois dias foi me enxergar no mundo que esses três retratinhos refletem.

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2 Comentários on "O Teste do 3×4"

  • Renata diz

    Fora FHC, fora FMI, fora Marcovitch, viva o Taleban!!!!!

    Muito boa, Paulão!

  • luciara diz

    nao entendir nada

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