Pontuando

Um autor mata a sua obra a cada ponto final. Termina uma f(r)ase para iniciar outra, que por sua vez terminará. Hesita, mas dá um basta. Coloca um fim numa conversa, numa cena, num personagem. Mesmo que não queira. Ele pode tentar adiar, usar uma, duas, três vírgulas; ponto-e-vírgula, até. Mas sempre acaba no ponto final. Na morte matada, mas não morrida.
Não morrida porque sempre chega alguém e abre o livro. Aí aquelas palavras mortas se juntam, alimentam-se umas das outras, renascem, existem. Vibrando de novo. Como antes daquele ponto final. Os acontecimentos voltam a se suceder e pessoas nascem ali mesmo, diante dos nossos olhos, vindas não se sabe bem de onde. Puxamos conversa, perguntamos seus nomes, e de repente a pergunta se transformou em uma enxurrada de palavras inundando o mundo de sentimentos.

As palavras não param. Ao contrário, fluem cada vez mais, cada vez mais fortes. Não querem mais saber do ponto final, acham que estão livres dele. Quer dizer, sabe-se que ele chegará, mas não já; ainda está longe. Enquanto procuramos o ponto definitivo lá na frente tentamos esquecer dos outros, transformar todos em vírgula. Se a coisa apertar, concordamos com uma pausa maior e apelamos para o ponto-e-vírgula. Mas ponto final só pode ter um.

Só que não tem. Os pontos finais estão por aí, sempre esperando o fim de um período. Podemos enfiar mais e mais verbos, enrolar o quanto quisermos. De nada vai adiantar. Os verbos farão cada vez menos sentido, dirão cada vez menos. Teremos parado de nos entender há muito tempo, mas continuaremos falando, e falando, e falando. Até esgotarmos o nosso vocabulário ou o esforço não valer mais a pena. Por que estávamos fazendo tanto sacrifício mesmo? Não sei. Nessa altura é provável que lembremos das reticências, aquela que deixa o dito pelo não dito. Na falta de um, três pontos finais. Uma morte três vezes não morrida.

E mais de três vezes pior, porque esse é o fim sem final. É quando o mundo continua girando, com tudo nele. Quando não fomos pegos de surpresa nem ficamos com coisas por dizer. É quando tudo continua ali, em suspenso, com o que seria ou deveria ter sido esperando. Mas quem sabe se nessa insinuação de futuro a gente não ganha tempo para seguir os verbos desconexos, as vírgulas, tudo, e ver se a trilha leva ao motivo não da primeira palavra, sempre casual, mas da segunda, essa sim a primeira, porque intencional, que dissemos. Aí, enfim, conseguiremos colocar o ponto final no período. Mas um só, que é para podermos começar outro.

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4 Comentários on "Pontuando"

  • paulo roberto vasconcellos diz

    muito bom e ponto final.

  • Mutcho legal!

    Se a gente pirar na idéia, dá pra pensar numa vingança das palavras. Mais ou menos assim: as palavras podem existir sem o ponto. Agora, o ponto só existe porque veio uma palavra antes. Rola uma relação de dependência.

    E tem mais: o ponto é o último mas nunca vai ser o primeiro. Ele é restrito; só separa ou termina. A palavra explica, dá idéia de alguma coisa.

    Se a palavra constrói, o ponto destrói. É o meio-campo criativo e contra o volante cabeça-de-bagre.

  • Ricardo diz

    Jacaré,

    Escreve mais dois parágrafos pra esse comentário, que vira crônica, e das boas!

  • Renata diz

    Jaca,

    Concordo plenamente com o Ricardo. Desenvolve essa história e “dialogue” (bonito isso, né?) com a crônica do Paulo.

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