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Pontuando - (22-10-2001) Um autor mata a sua obra a cada ponto final. Termina uma f(r)ase para iniciar outra, que por sua vez terminará. Hesita, mas dá um basta. Coloca um fim numa conversa, numa cena, num personagem. Mesmo que não queira. Ele pode tentar adiar, usar uma, duas, três vÃrgulas; ponto-e-vÃrgula, até. Mas sempre acaba no ponto final. Na morte matada, mas não morrida. As palavras não param. Ao contrário, fluem cada vez mais, cada vez mais fortes. Não querem mais saber do ponto final, acham que estão livres dele. Quer dizer, sabe-se que ele chegará, mas não já; ainda está longe. Enquanto procuramos o ponto definitivo lá na frente tentamos esquecer dos outros, transformar todos em vÃrgula. Se a coisa apertar, concordamos com uma pausa maior e apelamos para o ponto-e-vÃrgula. Mas ponto final só pode ter um. Só que não tem. Os pontos finais estão por aÃ, sempre esperando o fim de um perÃodo. Podemos enfiar mais e mais verbos, enrolar o quanto quisermos. De nada vai adiantar. Os verbos farão cada vez menos sentido, dirão cada vez menos. Teremos parado de nos entender há muito tempo, mas continuaremos falando, e falando, e falando. Até esgotarmos o nosso vocabulário ou o esforço não valer mais a pena. Por que estávamos fazendo tanto sacrifÃcio mesmo? Não sei. Nessa altura é provável que lembremos das reticências, aquela que deixa o dito pelo não dito. Na falta de um, três pontos finais. Uma morte três vezes não morrida. E mais de três vezes pior, porque esse é o fim sem final. É quando o mundo continua girando, com tudo nele. Quando não fomos pegos de surpresa nem ficamos com coisas por dizer. É quando tudo continua ali, em suspenso, com o que seria ou deveria ter sido esperando. Mas quem sabe se nessa insinuação de futuro a gente não ganha tempo para seguir os verbos desconexos, as vÃrgulas, tudo, e ver se a trilha leva ao motivo não da primeira palavra, sempre casual, mas da segunda, essa sim a primeira, porque intencional, que dissemos. AÃ, enfim, conseguiremos colocar o ponto final no perÃodo. Mas um só, que é para podermos começar outro. |
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paulo roberto vasconcellos - prvasc@terra.com.br 25-10-2001 02:53
muito bom e ponto final. |
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Jacaré - link - guilhermepita@hotmail.com 26-10-2001 10:39
Mutcho legal! Se a gente pirar na idéia, dá pra pensar numa vingança das palavras. Mais ou menos assim: as palavras podem existir sem o ponto. Agora, o ponto só existe porque veio uma palavra antes. Rola uma relação de dependência. E tem mais: o ponto é o último mas nunca vai ser o primeiro. Ele é restrito; só separa ou termina. A palavra explica, dá idéia de alguma coisa. Se a palavra constrói, o ponto destrói. É o meio-campo criativo e contra o volante cabeça-de-bagre. |
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Ricardo - ricardo@cronistasreunidos.com.br 26-10-2001 12:26
Jacaré, Escreve mais dois parágrafos pra esse comentário, que vira crônica, e das boas! |
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Renata - renata.natacci@jwt.com 31-10-2001 06:37
Jaca, Concordo plenamente com o Ricardo. Desenvolve essa história e “dialogue” (bonito isso, né?) com a crônica do Paulo. |