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Casa de FamÃlia - (21-11-2001)
Duas e meia da manhã. A porta do sobrado se abre devagar, sem fazer barulho. Uma pessoa entra na ponta dos pés. Dá uns quantos passos e se volta para o vulto que permanece na porta.
- Está tudo bem. Pode vir.
- Tem certeza?
- Tenho, pode vir.
- Olha lá, hein….
- Quer parar com isso, Távio? Já falei que tá tudo bem. Você quer ou não quer?
- Quero, mas…
- Então pára de se afundar e vem logo.
O Otávio seguia a Roberta sem dar um pio. Não que estivesse calmo, não estava, mas porque conhecia os sogros e não queria arriscar qualquer ruÃdo. Ainda bem que a Roberta sabe as manhas da casa. Já no quarto dela os dois se atracaram sem perder tempo. Dali a pouco a janela estava toda embaçada, dando uma idéia da temperatura ambiente quando o Otávio gelou de novo.
- Tem certeza que não dá para ouvir?
- Tenho, Távio.
- Mas e se, sei lá, você se empolgar?
- Eu não vou me empolgar….
- Não?
- Não… Quer dizer, vou, mas não vou me empolgar assim… Fica tranquilo que eu me empolgo em silêncio, tá bom?
- Tá… Mas…
- Mas o que, Otávio? Cacete! Não tem problema. É seguro, ok? É só a gente ficar quieto que ninguém ouve nada. Podemos continuar? - e o agarra antes que ele abra a boca de novo e destrua a noite de uma vez.
- Hum…
- Nhaaaaaaaaaa…..
- Huuuuummmmmmmmmm…..
- NhaaaaaAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHH!!
- Que foi, Rô? Que foi? Lugar errado?
- É, mas não foi isso. Acho que eu vi alguma coisa….
- Hehehehe… É?
- Larga de ser idiota. Acho que eu vi alguma coisa se mexendo aqui no quarto.
- Como?
- Ai, Otávio, sai, sai…. Deixa eu acender o abajur.
- Deixa que eu acendo.
- Foi você, Távio?
- Eu não falei nada.
- Então quem…. ai…. AAAAA - Uma mão impede um novo grito. A luz se acende.
- Fui eu quem falou. - o homem está vestido todo de preto e tem o rosto coberto por uma máscara de esqui. - Se tu prometer não gritar eu tiro a mão, beleza? Tu promete? Aê, taÃ.
- Quem é você?
- Ninguém, mas tu pode me chamar de Tucão.
- E o que é que você está fazendo aqui?
- Nada.
- Como assim, nada? Você invade o quarto da minha namorada e diz que não está fazendo nada?
- Shhhhh! Olha o volume! Você quer que meus pais acordem?
- Desculpa.
- É isso aÃ, feio, não tô fazendo nada. Só entrei aqui, valeu?
- Opa! PeraÃ. Ouviram isso?
- Ouvi. Passos. Ai…. Meus pais!
- O que é que está acontecendo aqui? AH! O QUE É ISSO?
- Nada, mãe.
- NADA? NADA? Como você pelada com dois homens no quarto é nada? E um mascarado ainda por cima!
- AÃ, dona, eu não sou tarado, valeu? Essa coisa de três não é comigo. Eu já tava aqui quando eles chegaram, sacou?
- Sei, e quem é o senhor?
- Ninguém, mas tu pode me chamar de Tucão.
- Muito bem, Sr. Tucão…
- Senhor, não, dona. Só Tucão mesmo.
- Tá. Então, Tucão, o que você está fazendo aqui?
- Nada.
- Nada?
- É, tipo, nada….
- Tucão!
- Tá… eu e uns manos távamos armando um lance, mas deu treta, aà a gente teve que espirrar. Eu tava dando um tempo aqui enquanto não liberam a parada, sacou?
- Você está se escondendo, é isso?
- Só.
- E o senhor, senhor Otávio?
- Olha, dona Sônia, não é o que a senhora está pensando…
- Você podia pelo menos colocar a cueca antes de falar isso, meu filho. E você também, Roberta, quer fazer o favor de se cobrir? Ai, que vergonha! O que eu faço com vocês?
- Ó, dona, se a senhora quiser eu posso ensinar o feio aqui a respeitar a mina.
- Hum…. Não sei….
- Mãe!
- Ô, dona Sônia, não brinca com isso…
- Deixa, Tucão. Eu me acerto com os dois aqui.
- Tem certeza, dona?
- Tenho.
- Então eu vou vazar, beleza?
- Tá bom. Você vai como?
- Não tinha pensado nisso. Não tem busão até as cinco… Acho que vou puxar um carro.
- Melhor não, Tucão. Pega esse dinheiro e vai de táxi.
- Valeu, dona Sônia. Se a senhora mudar de idéia sobre o mané aà é só deixar recado nesse número, beleza?
- Combinado.
- Quanto a vocês dois, a gente conversa amanhã.
- Bom, vou indo então…
- Mas tá tarde, Otávio. Mãe, deixa ele dormir aqui?
- Hum….
- Ô, mãe! Esse tal de Tucão ameaçou o Távio, vai saber se ele não está lá fora esperando ele sair…
- Tá bom, ele pode ficar. No quarto de hóspedes.
- Ué, por que não aqui?
- A senhorita está pensando o que, dona Roberta? Isso aqui é casa de famÃlia.
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