Extraordinário!

Fizemos um mundo extraordinário. Pode não ser tudo o que imaginamos, mas com certeza é muito mais do que outros imaginaram. Não descemos vinte mil léguas nem fomos ao centro da Terra, mas chegamos à lua. Aproveitamos e dominamos os céus, que estavam no meio do caminho. Agora, entre um foguete e outro, ondas viajam pelos ares levando de tudo um pouco. Levam até aviões, em uma rotina impensável há pouco mais de cem anos.

Na verdade não faz muito que tudo com que estamos acostumados eram apenas idéias. Imaginem o que foi pensar pela primeira vez em transmitir informações pelo ar – e o tamanho da encrenca para provar a sanidade do “iluminado” – ou o assombro ao descobrir como transformar e distribuir energia. Isso sem contar a satisfação orgulhosa de tantas outras pequenas descobertas, que hoje são tão comuns que mal damos por elas. Construímos um histórico impressionante de transformar devaneios em realidade, ainda que alguns levem ( literalmente ) séculos para virar realidade.

É intrigante tamanha obstinação. No fim das contas, o que levava arquitetos a construir duas, três, dez vezes a mesma abóbada até que as forças estivessem equilibradas e ela não caísse? Só pode ser teimosia. Quem já viu a construção de uma estrada sabe disso. Da mesma forma, nada mais consegue explicar o que nos faz encarar naturalmente o fato de um airbus voar. Pelo amor de Deus, estamos falando de um tijolo de sabe-se lá quantas toneladas. No ar. A única alternativa que poderia fazer algum sentido é senso de sobrevivência. Vai ver enfiamos na cabeça que o melhor modo de nos garantirmos era dominar o ambiente, vencer a natureza. Só que colecionamos mais vitórias do que se poderia supor, levamos o adversário à lona e ainda não paramos. Nem há sinal de que vamos parar. Sobrevivência não é a razão.

Pensando bem, teimosia também não é. Não fazemos nada porque somos teimosos, ao contrário: somos teimosos quando queremos fazer algo. Depois de investigar terra, mar e ar, tentamos agora o espaço. E desde sempre tem quem acredite que existem outros mundos em outros planos que podem ser vasculhados. O que procuramos com tanto empenho?

( A Felicidade

A felicidade é absoluta, certo? É a plenitude, é saciedade permanente, é embevecimento eterno, prazer perene. Tudo o que não é. O estado natural das coisas é inconstante, impreciso, imperfeito; não é inteiro, não é o suficiente, é mais ou é menos. Não é a felicidade. Não deve ser infelicidade também; pode ser não-felicidade.

Mas é certo que qualquer coisa diferente do ideal não é a felicidade. Como, por exemplo, ter de lidar com a idéia de ser capaz de imaginar mas não de realizar. Ou de não ter. Pôxa, temos o direito de ter tudo o que queremos, como queremos e quando queremos. É justo querermos a amante perfeita na esposa perfeita e vive-versa, o texto perfeito nas palavras e as palavras perfeitas no texto, e desejo após desejo, tudo o mais que for ideal.

Mas como nem todo mundo tem disposição para ir atrás, tem gente dizendo que é bobagem perseguir a felicidade. De repente eles podem estar certos. Parece que ninguém nunca a viu mesmo. Há registros de gente que avistou uma felicidade aqui, ou uma alegria ali, mas nada sobre a felicidade. As testemunhas contam que de vez em quando cruzam com uma alegria, puxam conversa e ficam um tempo com ela. Depois, se separam numa boa. Dizem que não correm atrás dela nem se sentem rejeitados. Acham que qualquer dia eles se cruzam de novo. Ou trombam com outras. E assim, de alegria em alegria, uma felicidadezinha de cada vez, vão levando a vida. Nada de novo nisso. )

Extraordinário – Cont.

Seja o que for que estamos procurando, de duas, uma. Ou o que buscamos não existe ou achamos mas não percebemos. Está mais do que provado que a ordem natural do homem é imaginar e depois materializar, por isso é possível que estejamos à cata de um delírio que nunca será concreto ( será esse o nosso limite? ). Por outro lado, nos acostumamos tanto a querer mais que essa coisa de pensar-e-depois-fazer virou um hábito. Virou uma rotina mecânica que nos faz tropeçar no que queríamos sem notar. Várias vezes, aliás. Afinal, se nossos quereres são tão facetados porque nosso objetivo deveria ser absoluto?

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4 Comentários on "Extraordinário!"

  • Paulo, para variar, um texto denso, que levanta muitas questões. Gostei muito.

  • Paulo diz

    Valeu, Dani!! Quero organizar as idéias e ver se dá um jeito de viver escrevendo. Pretendo montar uma pasta fantasma e ver se me enfio em alguma outra agência. VACA eu só escrevo para anúncio de hj em diante… hehehehehe….

    ps: valeu pela força durante todo o ´cow affair´de ontem…

  • vandreza diz

    Já fazia um tempinho que eu não enfrentava um texto seu… acho que valeu! Valeu pra me deixar bastante encucada…isso sim!

    Acho que você realmente deveria fazer da palavra o seu ganha-pão! SUCESSO, mas por favor trate de inventar um nome artistico… senão você poderá ter problemas…

    Um beijo grande, van

  • Eu quero (quero mesmo) que você faça um puta sucesso como escritor para calar a boca de qualquer VACA, VACA, VACA, VACA, VACA, VACA.

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