Derrapando na Maionese

Foram três meses até a Fabi ceder. Depois de noventa dias de telefonemas engraçadinhos, surpresinhas e cheque especial, ela finalmente topou sair com o Beto. Mas se o “sim” dela foi o fim de alguns problemas, foi também o começo de outros. Como, por exemplo, achar um restaurante legal mas que o Beto pudesse pagar. Os pais já tinham avisado que não iam mandar mais um centavo para comprar livros naquele mês, ele que se virasse com a biblioteca da faculdade.

Com a fonte seca, a lista não foi grande. A sorte é que o braço direito da operação Fabi era o Fábio. Ele conhecia como ninguém o roteiro bom & barato e apesar do orçamento conseguiu sugerir um ou dois lugares. Tirando essas contribuições, sobravam apenas pizzarias e lanchonetes. Para tristeza do Fábio o Beto enfiou na cabeça que seria o máximo levar a Fabi numa lanchonete. Nem ele soube explicar bem o motivo, mas achou que combinava com ela. Ao Fábio restou apenas resignar-se e rezar para ele não soltar uma dessas na frente da menina. Por precaução, decidiu ( tentar ) preparar o Beto para o jantar. A preocupação se justificava. Não só pelo estilo direto, por assim dizer, do Beto, mas também porque ele sabia que jantares são decisivos.

As práticas alimentares são uns dos nossos últimos elos com os nossos antepassados. O problema é que as mulheres não descendem das mesmas bestas selvagens que os homens, e por isso não toleram nada que lembre os documentários do Discovery Channel. Assim, para termos qualquer chance de tentar perpetuar a espécie – pontual ou regularmente – precisamos estar mais perto dos modos dos príncipes encantados imaginários do que do Neanderthal que há em cada um de nós. É claro que mais cedo ou mais tarde todas elas conhecem a nossa verdadeira face, mas aí já fomos apresentados às suas amigas – fato que por si só melhora qualquer homem e o torna digno de ser mantido. Só que isso acontece apenas se formos aprovados no primeiro jantar.

Apesar de individualmente sermos incapazes de domar nossos instintos, soubemos nos organizar e criamos as condições para vencer a primeira refeição. Inventamos os restaurantes. Neles tudo é pensado para agirmos não da forma que queremos , mas do jeito que elas esperam. O que muitos chamam de frescuras na verdade são engenhosas medidas de proteção. Garçons antipáticos, cardápios indecifráveis, ambiente opressor, tudo isso é para o nosso bem. Quando o garçom sugere um prato e finge que não ouve quando você pede outro, ele na verdade está prevenindo uma escolha arriscada. Da mesma forma, pratos com nomes que você não entende o obrigam a pedir uma sugestão para o maitre, que imediatamente reconhece o sinal e vem em seu socorro com alguma iguaria que não exige qualquer habilidade para ser engolida. O importante é estarmos sempre constrangidos, porque isso inibe qualquer ação e evita gafes.

Obviamente, a qualidade da proteção está diretamente ligada ao preço do restaurante. Não pense que pagamos pela comida ou pela decoração. Pagamos pela ajuda recebida. Um bom restaurante é mais ou menos como uma boa apólice de seguro: não dá para querer uma cobertura completa por um precinho mixo. Quanto mais barato, mais perigo você corre. E mais perto você fica da linha que divide os restaurantes inibidores dos indulgentes.

Da mesma forma que existem restaurantes que foram feitos para nos ajudar na guerra dos sexos, há também aqueles em que podemos ser nós mesmos. São os lugares para comemorarmos nossas vitórias e chorarmos nossas derrotas. Logicamente, não são ambientes adequados para mulheres, salvo em dois casos: quando elas estão conformadas o suficiente para saber que homem é assim mesmo ou quando estão apaixonadas a ponto de não se importarem. Qualquer uma que esteja no meio desses dois extremos decretará o fim da relação. Esses lugares normalmente são botecos, cantinas e, infelizmente, lanchonetes.

Mesmo sabendo de tudo isso – o Fábio fez questão de esmiuçar cada detalhe – o Beto insistiu em levar a Fabi para comer um lanche. Nem o garçom conseguiu evitar um olhar de comiseração quando ele pediu um cheese maionese e, sorrindo para a Fabi, emendou: Caprichado, hein? Essa fez o Fábio se contorcer na mesa de trás, de onde ele e seu desespero acompanhavam tudo. O golpe de misericórdia foi quando o Beto disse, entre lambidas na maionese e batalhas com o queijo derretido, que o sanduíche estava uma delícia, com certeza muito melhor que qualquer salada caesar. Não por acaso o comentário mais entusiasmado da Fabi durante toda a noite foi em defesa dos croutons da sua salada, que estava, sim, muito boa. A salada, aliás, era a única coisa que prestava naquele lugar gorduroso e barulhento. Ela não aguentava mais os ruídos do cara atrás dela. Se não soubesse ser impossível, seria capaz de jurar que fazia pelo menos vinte minutos que o sujeito batia a cabeça na mesa sem parar.

Apesar de tudo a operação Fabi não acabou naquela noite. Dois dias depois o Fábio ligou para ela e a convidou para jantar. A Fabi adorou. Continuam saindo até hoje.

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4 Comentários on "Derrapando na Maionese"

  • paulo roberto vasconcellos diz

    Meu, faz tempo que eu estou pra te falar: você tem um estilo muito legal, um tipo de humor fino e inteligente, daqueles que não arrancam gargalhadas escrachadas, mas aquele sorriso sutil, aquela leve contração no canto da boca e a sensção prazerosa de ter lido um texto que consegue ser refinado sem ser chato. Sobre esse texto, tô começando a achar que a sua intenção é escrever um manual para namorados. Não é má idéia.

  • Paulo diz

    Serjão: o Joakin´s é, antes de tudo, uma lanchonete. Ninguém vai lá para pedir um requintado quiche, ou mesmo um arroz com bife. O povo vai lá para se empanturrar de tremendão. E vc sabe bem que ir no Joakin´s e não pedir a maionese deles nao existe. JAMAIS PROSPECTAR EM LANCHONETES…. hehehehe

  • Paulo diz

    Paulo: valeu pelos elogios!! O que mais eu podia querer além daquele sorriso cúmplice, como são os de canto de boca, e um leitor satisfeito? hehehehe….

    Quanto a esse texto… Bom, eu vira e mexe acabo caindo no tema relacionamentos, né? Essa é uma coisa que eu penso desde o primeiro ano de ECA, quando toda menina era uma namorada em potencial – até, claro, eu ter a infeliz idéia de almoçar com ela no Vegê e comer um X-Maiô. Se bem que eu merecia queimar meu filme… Que tipo de gente tinha coragem de comer x-maionese no Vegê?

  • Renata diz

    COMO ASSIM “TODA MENINA ERA UMA NAMORADA EM POTENCIAL”??????

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