Uma Conversa com Veríssimo

Participações especiais são bastante comuns em crônicas. Elas são boas porque além de emprestarem brilho ao texto, não cobram cachê nem dão furo. Sempre aparecem na hora e nunca dão vexame – a menos que o autor queira. É claro que nem todas as aparições são por interesse. Na maioria das vezes o que fala mais alto é a satisfação em receber o visitante, quase sempre um assíduo frequentador da cabeceira do anfitrião. No meu caso, a presença constante no criado mudo é o Veríssimo.

O problema é que os convidados ilustres só aparecem em crônicas alheias depois de mortos. Lógico que eu não insistiria em ter o Veríssimo aqui se ele precisasse morrer para dar as caras. Longe de mim. Essa coisa de visita póstuma nada mais é que uma convenção, um jeito que os autores vivos encontraram para não sofrer represálias pelas palavras que colocam na boca dos outros. Só convidam quem não pode reclamar. Apesar de o Veríssimo ainda estar vivo ( e eu torço para ele continuar assim por muito tempo ), acho que não corro perigo. Primeiro porque a chance de ele descobrir esse texto é nula; segundo, por causa do seu notório laconismo. Não é fácil arrancar uma palavra dele, e não vai ser uma bobagenzinha dessas que vai conseguir. Então, como estou abaixo do radar, vou receber o Veríssimo nessa crônica.

Minha primeira providência é criar as condições para a conversa acontecer. A situação tem que ser pelo menos um pouquinho verossímil para funcionar. Deixa eu ver… Posso estar em uma dessas livrarias de bairro, fuçando, quando o Veríssimo entra. Hum, não. Forçado. Quem me conhece não ia acreditar. Também não dá para simplesmente topar com ele na rua, do nada. Até porque ele só viria para São Paulo por causa de compromissos profissionais e, nesse caso, se a gente se cruzasse por aí ele não teria tempo para ficar conversando. Ainda mais com um estranho. Mesmo se eu me fizesse esbarrar com o Veríssimo mais tarde, quando ele estivesse menos ocupado, não daria muito certo. Qualquer tentativa de abordagem no meio da rua provavelmente ia acabar com ele correndo ( compreensivelmente ). Encontro casual não funciona. Bom, pelo menos ele está em SP. E a noite paulistana é obrigatória, especialmente para quem está só de passagem e gosta de jazz. Legal. Isso é plausível.

Como eu também gosto de um jazzinho, vou para esse agradável bar-restaurante com música ao vivo e me instalo. A minha namorada está atrasada, aliás, muito atrasada, como descubro depois de uma rápida ligação. Enquanto espero a Coca, dou aquela olhada em volta para mapear o ambiente. Com quem me deparo? Ahá! Com o Veríssimo. Pronto. Estamos no mesmo lugar. Agora é só fazer ele falar.

Não deve ser tão difícil. Esse jeitão quieto do Veríssimo deve ser apenas uma fachada para manter os inconvenientes longe e deixar o Jô se entrevistar à vontade . Ele deve ser mais falante do que dizem. Seja como for, ainda preciso de alguma coisa interessante para falar. Tem que ser um comentário inteligente, instigante. Mas não posso me esquecer de que ele está ali para relaxar. Melhor não falar de trabalho. Nem do meu, porque estou sem. Eu estava bem perdido, até que o garçom apareceu com o assunto: comida. Sem dúvida um tema empolgante para nós dois. E ainda dei sorte, porque o prato que ele pediu não é sofisticado. É só uma travessa de coxas empanadas. Pequenas coxas, na verdade. Não deve ser de galinha. Deve ser… deve ser… Já sei: galeto! Galeto empanado.

Com o assunto na manga, tudo o que tenho a fazer é mudar para a mesa ao lado da dele e arrumar um pretexto para puxar papo. Fácil. Peço o cardápio e o examino minuciosamente. Não achei o tal do galeto empanado no menu, mas não tem importância. Deve ser um daqueles pratos secretos que só os habitués e as pessoas que o chef quer agradar conhecem. Essa era a deixa:

– Isso aí parece estar ótimo. Mas não estou achando esse franguinho, quer dizer, galeto empanado aqui no cardápio….

Nada. Talvez sendo mais direto:

– Como você descobriu esse prato?

Dessa vez consegui uma resposta. Um leve “não” com a cabeça. Percebendo meu apuro, um garçom veio me socorrer. Prestativo, apontou no cardápio o prato que eu não conseguia encontrar. Agradeci e pedi um. No fim das contas, minha conversa com o Veríssimo não passou do meneio desaprovador. Acho que para ter direito a algumas palavras eu preciso pelo menos aprender a distinguir perna de rã de coxa de frango. Pelo menos.

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2 Comentários on "Uma Conversa com Veríssimo"

  • Hahahahahhaah…. cara, eu também não sei distinguir uma coxa de frango de uma perna de rã, mas sei quando vejo um texto fenomenal! E este aqui está requintadíssimo, se eu fosse você, mandava pro cara! Ele iria se ver num espelho !!! ahahahaahh… parabéns !

  • Dani diz

    Muito, muito bom Paulão. Mas acho que vai rolar mais papo qdo vocês se encontrarem.

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